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terça-feira, 23 de julho de 2024

Emmanuel - Livro Ave, Cristo! - Chico Xavier - Prefácio - Ave, Cristo!



Emmanuel - Livro Ave, Cristo! - Chico Xavier - Prefácio


Ave, Cristo!


Hoje, como outrora, na organização social em decadência, Jesus avança no mundo, restaurando a esperança e a fraternidade, para que o santuário do amor seja reconstituído em seus legítimos fundamentos.

Por mais se desenfreie a tormenta — Cristo pacifica.

Por mais negreje a sombra — Cristo ilumina.

Por mais se desmande a força — Cristo reina.

A obra do Senhor, porém, roga recursos na concretização da paz, pede combustível para a luz e reclama boa vontade na orientação para o bem.

A ideia divina requisita braços humanos.

A bênção do Céu exige recipientes na Terra.

O Espiritismo, que atualmente revive o apostolado redentor do Evangelho, em suas tarefas de reconstrução, clama por almas valorosas no sacrifício de si mesmas para estender-se, vitorioso.

Há chamamentos do Senhor em toda a parte.

Enquanto a perturbação se alastra, envolvendo-te, e enquanto a ignorância e o egoísmo conluiados erguem trincheiras de incompreensão e discórdia entre os homens, quebram-se as fronteiras do Além, para que as vozes inolvidáveis dos vivos da eternidade se expressem, consoladoras e convincentes, proclamando a imortalidade soberana e a necessidade do Divino Escultor em nossos corações, a fim de que possamos atingir a nossa fulgurante destinação na vida imperecível.

Alinhando, pois, as reminiscências deste livro, não nos propomos romancear, fazer literatura de ficção, mas sim trazer aos nossos companheiros do Cristianismo redivivo, na seara espírita, breve página da história sublime dos pioneiros de nossa fé.

Que o exemplo dos filhos do Evangelho, nos tempos pós-apostólicos, nos inspire hoje a simplicidade e o trabalho, a confiança e o amor, com que sabiam, abdicar de si próprios, em serviço do Divino Mestre! que saibamos, quanto eles, transformar espinhos em flores e pedras em pães, nas tarefas que o Alto depositou em nossas mãos!…

Hoje, como ontem, Jesus prescinde das nossas guerrilhas de palavras, das nossas tempestades de opinião, do nosso fanatismo sectário e do nosso exibicionismo nas obras de casca sedutora e miolo enfermiço.

O Excelso Benfeitor, acima de tudo, espera de nossa vida o coração, o caráter, a conduta, a atitude, o exemplo e o serviço pessoal incessante, únicos recursos com que poderemos garantir a eficiência de nossa cooperação, em companhia dele, na edificação do Reino de Deus.

Suplicando-lhe, assim, nos ampare o ideal renovador, nos caminhos de árdua ascensão que nos cabe trilhar, repetimos com os nossos veneráveis instrutores dos primeiros séculos da Boa Nova:

— Ave, Cristo! os que aspiram à glória de servir em teu nome te glorificam e saúdam!


Emmanuel






Pedro Leopoldo, 18 de abril de 1953.

Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

sexta-feira, 26 de março de 2021

Emmanuel - Livro Ave, Cristo! - Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 1 - Preparando caminhos




Emmanuel - Livro Ave, Cristo! - Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 1


Preparando caminhos


Quase duzentos anos de Cristianismo começavam a modificar a paisagem do mundo.

De Nero aos Antoninos, todavia, as perseguições aos cristãos haviam recrudescido. Triunfantemente assentada sobre as sete colinas, Roma prosseguia ditando o destino dos povos, à força das armas, alimentando a guerra contra os princípios do Nazareno, mas o Evangelho caminhava sempre, por todo o Império, construindo o espírito da Era Nova.

Se na organização terrestre a Humanidade se desdobrava em movimentação intensa, no trabalho da transformação ideológica, o serviço nos Planos superiores atingia culminâncias.

Presididas pelos apóstolos do Divino Mestre, todos então na vida espiritual, as obras de soerguimento humano multiplicavam-se, em vários setores.

Tornara Jesus ao sólio resplendente de sabedoria e de amor, de onde legisla para todas as criaturas terrenas, mas os continuadores do seu ministério, entre os homens encarnados, qual enxame crescente de abelhas da renovação, prosseguiam ativos, preparando o solo dos corações para o Reino de Deus.

Enquanto exércitos compactos de cristãos desapareciam nas fogueiras e nas cruzes, nos suplícios intermináveis ou nas mandíbulas das feras, templos de esperança se levantavam felizes, além das fronteiras de sombra, dentro dos quais falanges enormes de Espíritos convertidos ao Bem se ofereciam para a batalha de suor e sangue, em que, usando a vestimenta física, dariam testemunhos de fé e boa vontade, colaborando na expansão da Boa Nova, para a redenção da Terra.

Assim é que, em formosa cidade espiritual, nas adjacências da Crosta Planetária, vamos encontrar grande assembleia de almas atraídas ao Roteiro Divino, escutando a exortação de iluminado orientador, que lhes falava, de coração posto nos lábios:

— Irmãos — dizia ele, envolvido em suaves irradiações de luz —, o Evangelho é código de paz e felicidade que precisamos substancializar dentro da própria vida!

O Sol que jorra bênçãos sobre o mundo incorpora-se à Natureza, sustentando-a e renovando-lhe as criações. A folha da árvore, o fruto nutriente, o cântico do ninho e a riqueza da colmeia são dádivas do astro sublime, materializadas pelos princípios da Eterna Inteligência.

Cristo é o Sol Espiritual dos nossos destinos.

Urge, pois, associarmo-nos voluntariamente aos ensinamentos dele, concretizando-lhes a essência em nossas atividades de cada dia.

Não podemos esquecer, entretanto, que a mente do homem jaz petrificada na Terra, dormindo nas falsas concepções da vida celeste.

A política de dominação militar asfixiou as velhas tradições dos primitivos santuários. As coortes romanas abafaram as vozes da filosofia grega, como os povos bárbaros sufocaram a revelação egípcia.

Adensou-se o nevoeiro da estagnação e da morte entre as criaturas.

As águias imperiais assentaram na cega idolatria de Júpiter a mentirosa religião da vaidade e do poder…

E enquanto os deuses de pedra absorvem os favores da fortuna, alonga-se a miséria e a ignorância do povo, reclamando o pronunciamento do Céu.

Como se expressará, porém, a intervenção divina, sem a cooperação humana?

Sem a heroica renunciação dos que se consagram ao progresso e ao aprimoramento das almas, a educação não passará de letra morta.

Imprescindível, portanto, é que saibamos escrever com o nosso próprio exemplo as páginas vivas do Cristianismo remissor.

O Mestre Crucificado é divino desafio.

Até agora, os conquistadores do mundo conseguiram avançar no carro purpúreo da vitória, matando ou destruindo, valendo-se das legiões de guerreiros e lidadores cruéis.

Jesus, no entanto, triunfou pelo sacrifício.

César, atado às vicissitudes humanas, governa os assuntos referentes à carne em trânsito para a renovação.

Cristo reina sobre a alma que nunca morre, aos poucos sublimando-a para a glória imperecível…

O tribuno venerável fizera uma pausa, como que intencional, porque o clangor distante de muitos lítuos reunidos se fazia ouvir, em pleno céu, dando a ideia de uma convocação para alguma batalha próxima.

As centenas de entidades que se conchegavam umas às outras, no admirável recinto cuja abóbada deixava perceber a luz tremeluzente das estrelas remotas, entreolharam-se, ofegantes…

Todos os Espíritos, ali congregados, pareciam ansiosos pela oportunidade de servir.

Alguns traziam no semblante expressões de saudade e dor, qual se estivessem ligados à batalha da Terra por feridas de aflição, somente curáveis com o retorno às angústias do passado.

Mas, a expectação não durou muito.

Superando as clarinadas, que ecoavam pela noite, a voz do pregador ressurgiu:

— Muitos de vós, amados irmãos, deixastes à retaguarda velhos compromissos de amor e desejais voltar ao áspero trilho da carne, como quem afronta as labaredas de um incêndio para salvar afeições inesquecíveis. Entretanto, devotados agora à verdade divina, aprendestes a colocar os desígnios do Senhor acima dos próprios desejos. Entediados da ilusão, consultais a realidade, buscando engrandece-la, e a realidade aceita o vosso concurso decisivo para impor-se no mundo.

Não olvideis, todavia, que somente colaborareis na obra do Cristo, ajudando sem exigir e trabalhando sem apego aos resultados. Como o pavio da vela, que deve submeter-se e consumir-se a fim de que as trevas se desfaçam, sereis constrangidos ao sofrimento e à humilhação para que novos horizontes se abram ao entendimento das criaturas.

Por muito tempo, ainda, o programa dos cristãos não se afastará das legendas do Apóstolo Paulo. Em tudo sereis atribulados, mas não aniquilados; perplexos, mas não desalentados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos, trazendo sempre, por toda a parte, a exemplificação do Senhor Jesus, no próprio corpo, para que a vida divina se manifeste no mundo.

E, assim, quantos renascerem nas sombras da matéria mais densa, estarão incessantemente entregues ao sacrifício, por amor à verdade, a fim de que a lição do Divino Mestre brilhe mais intensamente nos domínios da carne mortal.

O mentor explanou ainda, por vários minutos, quanto aos deveres que aguardavam os legionários do Evangelho, entre os obstáculos do mundo, descendo, por fim, da tribuna dourada para o cultivo da conversação fraterna.

Vários amigos oscularam-lhe as mãos, comentando, com entusiasmo, os mapas de trabalho a que se prenderiam, de futuro.

Diminuíam os entendimentos e as rogativas de proteção, quando o pregador foi procurado por alguém com intimidade afetuosa.

— Varro! — exclamou ele, abraçando o recém-chegado e contendo a emoção.

Tratava-se de velho romano, de olhar percuciente e triste, cuja túnica muito alva, confundida com a roupagem brilhante do companheiro assemelhava-se a uma nesga de neblina apagada, de encontro a repentino clarão de aurora.

No amplexo de ternura que permutavam, era bem de ver-se a reaproximação de dois amigos que, por momentos, olvidavam a autoridade e a aflição de que eram portadores, para se transfundirem um no outro, depois de longa separação.

Trocadas as primeiras impressões em que antigos eventos do pretérito foram recordados, Quinto Varro, o romano de fisionomia simpática e amargurada, explicou ao companheiro, então guindado a Esfera superior, que pretendia voltar ao Plano físico, em breve tempo.

O representante da Esfera Mais Alta ouviu-o com atenção e obtemperou, admirado:

— Mas, porquê? Conheço-te o acervo de serviços, não somente à causa da ordem, mas igualmente à causa do amor. No mundo patrício, as tuas derradeiras romagens foram as do homem correto até ao extremo sacrifício e os teus primeiros ensaios na edificação cristã foram dos mais dignos. Não seria aconselhável o prosseguimento de tua marcha, acima das inquietantes paisagens da carne?

O interlocutor fixou um gesto silencioso de súplica e aduziu:

— Clódio, abençoado amigo! peço-te!… Sei que conservas o poder de autorizar minha volta. Sim, sem dúvida, os apelos de cima comovem-me a alma!… Anseio por reunir-me, em definitivo, aos nossos da vanguarda… No entanto — e a voz dele se fez quase sumida pela emotividade —, de todos os que ficaram para trás, tenho um filho do coração, perdido nas trevas, que eu desejaria socorrer…

— Taciano? — indagou o mentor, intrigado.

— Ele mesmo…

E Varro prosseguiu, com encantadora humildade:

— Sonho conduzi-lo ao Cristo, com os meus próprios braços. Tenho implorado ao Senhor semelhante graça, com todo o fervor de meu paternal carinho. Taciano é para mim o que a rosa significa para o arbusto espinhoso em que nasceu. Em minha indigência, ele é o meu tesouro e, em minha fealdade, é a beleza de que desejava orgulhar-me. Daria tudo por dedicar-me a ele, de novo… Acariciá-lo, junto do coração, para orientar-lhe os passos na direção de Jesus, é o Céu a que aspiro…

E, como se quisesse sondar a impressão que causava no amigo, acrescentava:

— Porventura estarei errado em minha aspiração?

 O velho orientador afagou-o, com visíveis demonstrações de piedade, passou a destra pela fronte banhada de luz e falou:

— Não discuto os teus sentimentos, que sou constrangido a respeitar, mas… valeria tamanha renunciação?

Como se articulasse as próprias reminiscências para exprimir-se com segurança, fez longa pausa, que ele próprio interrompeu, acentuando:

— Não acredito que Taciano esteja preparado. Vi-o, há alguns dias, no Templo de Vesta, chefiando larga legião de inimigos da luz. Não me pareceu inclinado a qualquer serviço do Evangelho. Vagueia nos santuários das divindades olímpicas, promovendo arruaças contra o Cristianismo nascente e ainda se compraz nos festins dos circos, encontrando incentivo e alegria nas efusões de sangue.

— Tenho acompanhado meu filho, nesse lamentável estado — concordou Quinto Varro, melancólico —, contudo, nos últimos dias, noto-o amargurado e aflito. Quem sabe estará Taciano à beira da grande renovação? Compreendo que ele tem sido recalcitrante no mal, consagrando-se, indefinidamente, às sensações inferiores que lhe impedem a percepção de mais altos horizontes da vida. Mas concluo, de mim para comigo, que algo deve ser feito quando temos necessidade do reajustamento daqueles a quem amamos…

E talvez porque Clódio silenciasse, pensativo, o afetuoso pai voltou a dizer:

— Abnegado amigo, permite-me voltar…

— Estarás, todavia, consciente dos riscos da empresa? Ninguém salvará um náufrago sem expor-se ao chicote das ondas. Para ajudar Taciano, mergulhar-te-ás nos perigos em que ele se encontra.

— Sei disso — atalhou Varro, decidido, prosseguindo em tom de súplica —; auxilia-me a pretensão, em nome de nossa velha amizade. Procurarei servir ao Evangelho com todas as minhas forças, aceitarei todos os sacrifícios, comerei o pão de fel embebido em suor e pranto; contudo, rogo permissão para convocar meu filho ao trabalho do Cristo, por todos os recursos que estiverem ao meu alcance… Certo, o caminho estará juncado de obstáculos, entretanto, com o amparo do Senhor e com o auxílio dos amigos, conto vencer.

O respeitável mentor, francamente compadecido, como quem não desejava delongar-se na conversação de ordem pessoal, indagou:

— Quanto tempo consideras imprescindível ao cometimento?

— Ouso colocar a resposta em teu próprio critério.

— Pois bem — concluiu o companheiro generoso —, endosso-te a decisão, confiantemente. Concedo-te vinte lustros para o trabalho a realizar. Creio que um século bastará. Determinaremos medidas para que sejas sustentado na nova roupagem de carne. Teus serviços à causa do Evangelho serão creditados em Esfera Superior e, quanto ao mérito ou demérito de Taciano, à frente de tua renunciação, admito que o assunto será privativo de tua própria responsabilidade.

Instado por amigos, na liquidação de outros problemas, Clódio lançou-lhe compassivo olhar e finalizou:

— Não te esqueças de que, pela oração, continuaremos juntos. Ainda mesmo sob o pesado  véu do esquecimento na luta física, ouviremos teus apelos, amparando-te com o nosso esforço assistencial. Vai em paz, quando quiseres, e que Jesus te abençoe.

Varro dirigiu-lhe comovedoras palavras de reconhecimento, reafirmou as promessas que formulara e ausentou-se, cismarento, sem saber ao certo que estranhas emoções lhe povoavam a alma, entre raios de alegria e dardos de amargura.

Em esplêndido crepúsculo, enquanto o sol, como um braseiro, tombava para os lados de Óstia, o Espírito de Quinto Varro, solitário e pensativo, chegou à Ponte Céstio, demorando-se na contemplação da corrente do Tibre, como que detido por obcecantes recordações.

Brisas suaves deslizavam cantando, qual se fossem ecos isolados de melodias ocultas no céu escampo.

Roma engalanara-se para celebrar as vitórias de Séptimo Severo sobre os seus temíveis competidores. Pescênio Níger, depois de tríplice derrota, fora colhido pelas forças imperiais e decapitado, às margens do Eufrates, e Albino, o escolhido das legiões da Bretanha, seria vencido nas Gálias, matando-se em desespero.

Diversos dias de festa comemoravam a glória brilhante do imperador africano, mas, por solicitação dos augustais, o término das solenidades estava marcado para a noite próxima, no grande anfiteatro, com todas as pompas do triunfo.

Mostrando fisionomia expectante e entristecida, Varro atravessou o pequeno território da ilha do Tibre e, ganhando o Templo da Fortuna, observou a multidão dos grupos esparsos de povo, a se adensarem na praça, em direção ao soberbo edifício.

As liteiras de altos dignitários da Corte, cercadas de escravos, dispersavam pequenas assembleias de cantores e dançarinos. Bigas faustosas e carros adornados varavam por entre a turba, conduzindo tribunos jovens e damas patrícias de famílias tradicionais. Marinheiros e soldados querelavam com vendedores de refrigerantes e frutas, enquanto a onda popular crescia sempre.

Gladiadores de corpo descomunal chegavam sorridentes, cortejados por jogadores inveterados da arena.

E, enquanto os sons de alaúdes e atabales se misturavam ao distante rugido das feras enjauladas para o soberbo espetáculo, a glória de Severo e o suplício dos cristãos eram os temas preferidos de todas as palestras.

O viandante espiritual fitava não só a multidão ávida de prazeres, mas também as falanges bulhentas de entidades ignorantes ou perversas que dominavam nas sombrias comemorações.

Varro tentou adiantar-se, revelando estar à procura de alguém, mas a pesada atmosfera reinante obrigou-o a recuar. Contornou o famoso anfiteatro, palmilhou as vielas que se estreitavam entre o Célio e o Palatino, atravessou a Porta Capena e atingiu o campo, dirigindo-se para os sepulcros da Via Ápia.   

A noite clara descera sobre o casario romano.

Milhares de vozes entoavam cânticos de júbilo, à prateada claridade do luar em plenilúnio. Eram cristãos desencarnados, preparando-se para receber os companheiros de sacrifício. Os mártires supostamente mortos iam saudar os mártires que, nessa noite, iam morrer.

Quinto Varro uniu-se ao extenso grupo e orou, fervorosamente, suplicando ao Alto forças para a difícil empresa a que pretendia consagrar-se.

Preces e comentários santificantes foram ouvidos.

Depois de algumas horas, a enorme assembleia espiritual deslocou-se no rumo do anfiteatro.

Hinos de alegria elevaram-se às alturas.

Não somente os mensageiros da Via Ápia alcançavam o anfiteatro em harmoniosas orações.

Enviados do Monte Vaticano e trabalhadores espirituais dos grupos de pregação evangélica do Esquilino, da Via Nomentana e da Via Salária, incluindo representantes de outras regiões romanas, penetravam o tumultuário recinto como exércitos de luz.

Introduzidos na arena para os derradeiros sacrifícios, os seguidores de Jesus igualmente cantavam.

Aqui e ali, vísceras de feras mortas, de mistura com os corpos horrivelmente mutilados de gladiadores e bestiários vencidos, eram retirados à pressa por guardas de serviço.

Alguns discípulos do Evangelho, notadamente os mais idosos, atados em postes de martírio, recebiam setas envenenadas, incendiando-se-lhes depois os corpos, a fim de servirem como tochas na festiva exibição, enquanto outros, de mãos postas, se entregavam, inermes, aos golpes de panteras e de leões da Numídia.  

Quase todos os supliciados desprendiam-se da carne, no sublimado êxtase da fé, recolhidos carinhosamente pelos irmãos que os esperavam em cânticos de vitória.

Quinto Varro, no entanto, em meio da claridade intensa com que as legiões espirituais haviam desintegrado as trevas, não se mostrava interessado na exaltação dos heróis.

Relanceava o olhar pelas arquibancadas repletas, até que, por fim, se deteve, com evidentes sinais de angústia, em álacre conjunto de Espíritos turbulentos, em arrojadas libações.

Ansiosamente, Varro abeirou-se de um jovem que desferia estrepitosas gargalhadas e, abraçando-o, com extremada ternura, sussurrava:

— Taciano, meu filho! meu filho!…

O rapaz que se mergulhava na mais profunda corrente de sensações inferiores não viu o benfeitor que o conchegava de encontro ao peito, mas, tomado de repentina inquietação, silenciou de imediato, abandonando o recinto, dominado por invencível amargura.

O jovem não identificava a presença do venerável amigo ao seu lado, contudo, abraçado por ele, experimentou imensa aversão pela odiosa solenidade.

Alheou-se dos companheiros e, sentindo fome de solidão, afastou-se, rápido, devorando ruas e praças.

Desejava pensar e reconsiderar, a sós, a senda por ele mesmo percorrida.

Depois de longo trajeto, alcançou a Porta Pinciana, em busca de insulamento. Nos jardins onde se venerava a memória de Esculápio, havia soberba estátua de Apolo, junto da qual, por vezes, gostava de meditar.

O corpo marmóreo da divindade olímpica levantava-se, magnífico, ostentando primorosa taça numa das mãos, de bordos voltados para o solo, como se procurasse fecundar a terra-mãe.

Num recipiente, aos pés do ídolo, fumegava o incenso ali colocado por mãos devotas e anônimas, embalsamando o sítio em aroma delicioso.

Atormentado por insopitável angústia, Taciano chorava sem querer, rememorando as próprias experiências.

Sabia-se fora do corpo físico, mas longe de encontrar as paisagens das narrações de Vergílio, cuja leitura lhe merecera especial atenção, vira-se incompreensivelmente atraído para as bacanais da sociedade em decadência, sendo surpreendido, depois do túmulo, tão somente por si próprio, com a sua velha sede de sensações. Delirara em banquetes e jogos, sorvera o prazer em todas as taças ao seu alcance, mas rendia-se ao tédio e ao arrependimento. Em que se resumia a vida? — perguntava a si mesmo, em solilóquio doloroso — onde se domiciliavam os deuses de sua antiga fé? Valeria a procura da felicidade, na temporária satisfação dos sentidos humanos, depois da qual havia sempre larga dose de fel? Como localizar as antigas afeições no misterioso país da morte? por que razões vagueava preso ao reino doméstico, sem equilíbrio e sem rumo? Não seria mais justo, se possível, adquirir novo corpo e respirar entre os homens comuns? Suspirava por mais íntimo contato com o plano da carne, em cuja penetração poderia esquecer a si mesmo… Oh! se pudesse olvidar os enigmas torturantes da existência, conchegando-se à matéria para dormir e refazer-se! — meditava.

Conhecia amigos que, depois de longas súplicas ao Céu, haviam desaparecido na direção do renascimento. Não ignorava que o Espírito imortal pode usar vários corpos, entre os homens; entretanto, não se sentia com a força precisa para dominar-se e oferecer às Divindades uma prece fundamentada no verdadeiro equilíbrio moral.

Naquele instante, porém, sentia-se mais angustiado que de outras vezes.

Saudade imensa e indefinível pungia-lhe o coração.

Depois de chorar em silêncio, fixou o semblante impassível da estátua e suplicou:

— Grande Hélios! Deus de meus avós!… Compadece-te de mim! Renova-me o sentimento na pureza e na energia que encarnas para a nossa raça! Se possível, faze-me esquecer o que fui. Ampara-me e concede-me a graça de viver, de conformidade com o exemplo dos meus antepassados!…

Com as inexprimíveis reminiscências do seu antigo lar, Taciano, inclinado para o solo, lamentava-se, amarguradamente; mas, quando enxugou as lágrimas que lhe obscureciam a visão e tornou a fitar a imagem do deus, não mais viu o ídolo primoroso e sim o Espírito de Quinto Varro, nimbado de intensa luz, a olhá-lo com enternecimento e tristeza.

O jovem quis recuar, transido de assombro, mas indefiníveis emoções subjugavam-lhe agora todo o ser.

Como que dobrado por forças misteriosas, ajoelhou-se ante a visita inesperada.

Desejou falar, mas não conseguiu, assinalando estranha constrição nas cordas vocais.

Pranto mais intenso jorrava-lhe dos olhos.

Identificou a personalidade do genitor e, esmagado por inexprimível emoção, notou que Varro caminhava para ele, de afetuoso olhar encimando triste sorriso.

A entidade amorosa afagou-lhe a cabeça atormentada e falou:

— Taciano, meu filho!… Que o Supremo Senhor nos abençoe a senda de redenção. Deixa que as lágrimas te lavem todos os escaninhos da alma! Milagrosa lixívia, o pranto purifica nossas chagas de vaidade e ilusão.

Não te julgues relegado ao abandono!…

Ainda mesmo quando as nossas preces se expandam ardentes, perante os ídolos sem alma, o coração augusto do Senhor as recolhe na misteriosa concha do seu amor infinito, apressando o socorro às nossas necessidades.

Tem calma e confiança, filho meu! Voltaremos à experiência da carne para resgatar e reaprender.

Nesse instante, Taciano, magnetizado pelo olhar paterno, tentou erguer-se para abraçá-lo ou rojar-se até o chão, a fim de oscular-lhe os pés; no entanto, como se estivesse imobilizado por laços invisíveis, não conseguiu articular qualquer movimento.

— Ouve-me! — prosseguiu Varro, compadecidamente — pedes o retorno à liça terrestre, entediado de ti mesmo, e receberás semelhante concessão. Estaremos novamente reunidos, na cela corpórea do mundo físico — abençoada escola de nossa regeneração para a vida eterna, todavia, não mais na exaltação do orgulho e do poder.

Nossos deuses de pedra estão mortos.

Júpiter, com o seu carro de triunfo, passou para sempre. Em lugar dele, surge o Mestre da Cruz, o escultor divino da perfeição espiritual imperecível, que nos toma por tutelados felizes do seu coração.

Outrora, acreditávamos que a púrpura romana sobre o sangue dos vencidos era o símbolo de nossa felicidade racial e admitíamos que os gênios celestes deviam permanecer submetidos aos nossos caprichosos impulsos. Hoje, porém, o Cristo nos orienta o passo por estradas diversas. A Humanidade é a nossa família e o mundo é o nosso Lar  Maior, onde todos somos irmãos. Diante do Céu, não há escravos nem senhores e sim criaturas ligadas entre si pela mesma origem divina.

Os cristãos que não compreendes agora são os alicerces da glória futura. Humilhados e escarnecidos, vilipendiados e mortos no sacrifício, representam a promessa de paz e sublimação para o mundo.

Um dia, ninguém se lembrará do fausto de nossas mentirosas celebrações. A ventania que sopra dos montes gelados espalhará sobre o chão escuro a cinza de nossa miserável grandeza, então convertida em lamentação e pó. Mas a renúncia dos homens e das mulheres que hoje se deixam imolar por uma vida melhor estará cada vez mais santificada e mais viva, na fraternidade que reinará soberana!…

Talvez reparando a profunda surpresa do jovem que o escutava, trêmulo e abatido, Quinto Varro acentuou:

— Prepara-te como valoroso soldado do bem. Em breve tempo, regressaremos à escola da carne. Serás para mim a estrela da manhã, indicando-me a chegada do sol, cada dia. Certo, sofrimentos cruéis abater-se-ão sobre nós, qual ocorre aos servidores da verdade nesta noite de tormentosa flagelação. Indubitavelmente, a dor espreitar-nos-á a existência, porque a dor é o selo do aperfeiçoamento moral no mundo… Conheceremos a separação e a desventura, o fel e o martírio, mas o pão da graça celeste entre os homens por muitos séculos ainda será amassado no suor e nas aflições dos servidores da luz! Seguirei teus passos, à maneira do cão fiel, e espero que, unido ao meu coração, poderás repetir, mais tarde:

— Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!…

O mensageiro fez longa pausa, enquanto aves noturnas piavam, doloridamente, no arvoredo mergulhado nas sombras.

Roma dormia, agora, em pesada quietação.

Quinto Varro inclinou-se, carinhosamente, apertou o filho de encontro ao peito e beijou-lhe a fronte.

Nesse instante, porém, talvez porque sensações contraditórias lhe turvassem o campo íntimo, Taciano cerrou os olhos para interromper a corrente das lágrimas copiosas, mas, ao descerrá-los, de novo, observou que seu pai havia desaparecido.

A paisagem fizera-se inalterada.

A estátua de Apolo brilhava, refletindo o luar esmaecido da madrugada.

Premido de angústia, Taciano alongou os braços para a noite que lhe pareceu, então, desolada e vazia, bradando, desesperado:

— Meu pai! meu pai!…

E porque seus gritos se perdessem sem eco, no espaço imenso, cansado e abatido estendeu-se na terra, soluçando…

Anos e anos se dobaram sobre estes acontecimentos…


Emmanuel






(Nota do Autor espiritual) — II Coríntios, 4:8-11
Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Emmanuel - Livro Ave, Cristo! - 2ª Parte - Chico Xavier - Cap. 2 - Sonhos e aflições



Emmanuel - Livro Ave, Cristo! - 2ª Parte - Chico Xavier - Cap. 2


Sonhos e aflições


De olhos postos no firmamento que se povoava de constelações, vamos encontrar Basílio, envolvido pelas brisas suaves do rio, falando para os ouvidos de Taciano, admirado:

— A vida para nós ainda representa impenetrável segredo celeste. Não passamos de animálculos que pensam. O poder é uma fantasia na mão do homem, assim como a beleza é um engodo no coração da mulher. Visitei o Egito, em companhia de dois sacerdotes de Amatunte, e ali encontramos variados remanescentes da sabedoria imortal. Estudei minuciosamente, nas pirâmides de Gizé, os problemas da vida e da morte, entrando em cogitações profundas sobre a transmigração das almas. O que aprendemos, em nossos cultos exteriores, é mera sombra da realidade. A truculência política dos últimos séculos prejudicou em toda a parte o serviço da revelação divina. Creio assim que nos abeiramos de tempos novos. O mundo tem fome de fé viva para ser feliz. Não admito estejamos limitados à existência física e o Olimpo há de ampliar-se para responder às nossas aspirações…

— Não acreditas, porventura — interferiu o interlocutor, preocupado —, que nos basta à felicidade coletiva a confiança pura e simples na proteção dos deuses, dentro do culto aos nossos antepassados?

— Sim, sim — considerou o ancião —, simplicidade é também uma das faces do enigma, entretanto, meu caro, no caso do nosso tempo de incomensuráveis desequilíbrios morais, avulta o problema do homem. Não somos bonecos nos tentáculos da fatalidade. Somos almas, usando a vestimenta de carne, em trânsito para uma vida maior. Pesquisei em todas as grandes estradas da fé, nos arquivos da Índia védica, do Egito, da Pérsia e da Grécia e, em todos os instrutores veneráveis, observei a mesma visão da glória eterna a que somos destinados. Tenho de mim para comigo que somos um templo vivo em construção, através de cujos altares se expressará no Infinito a grandeza divina. Nas experiências da Terra, porém, conseguimos edificar tão somente os alicerces do santuário, prosseguindo, além da morte do corpo, na complementação da obra sublime. Nas lutas da existência animal, desenvolvemos as potencialidades do espírito, habilitando-nos a elevação aos pináculos da vida.

E, depois de uma pausa em que parecia refletir quanto aos conceitos que enunciara, ponderou:

— Por isso mesmo, o problema é muitíssimo mais vasto. É indispensável saibamos destacar a dignidade humana, imanente em todas as criaturas. Escravos e senhores são filhos do mesmo Pai.

O amigo que lhe registrava atentamente as palavras, objetou, de chofre:

— Igualdade? isso, porém, viria contrariar a estrutura de nossa organização social. Como nivelar as classes, sem ferir as tradições?

O velho, contudo, sorriu calmo e acentuou:

— Meu filho, não me refiro à igualdade por violência, que viesse enfileirar na mesma categoria bons e maus, justos e injustos. Reporto-me ao imperativo de fraternidade e educação. Compreendo que a vida é semelhante a grande máquina, cujas peças vivas, que somos nós, devem funcionar harmoniosamente. Há quem nasça para determinada tarefa, a distância da nossa, como existe quem veja o caminho comum de maneira diferente dos nossos olhos. Atentos à certeza de que o nosso Espírito pode viver na Terra vezes inumeráveis, modificamos o curso de nosso trabalho, de existência a existência, como o aprendiz de letras primárias evolve, pouco a pouco, para as mais altas expressões de cultura. Não vemos, pois, como nivelar as classes, o que seria impraticável. O esforço pessoal e o mérito resultante são fronteiras naturais entre as almas, aqui e além. A hierarquia existirá sempre como sustentáculo inevitável da ordem. Cada árvore produz, segundo a espécie a que se filia, e cada qual merece mais ou menos estima, segundo a qualidade dessa mesma produção. Substituamos, assim, as palavras “senhores” e “escravos” por “administradores” e “cooperadores” e talvez atinjamos o necessário equilíbrio em nosso entendimento.

Buscando suavizar o diálogo, o ancião fez pequeno intervalo e acrescentou, sorridente:

— Precisamos de mais humanidade para sermos realmente humanos. Não é justo o cativeiro da sensibilidade e da inteligência e, a fim de que o nosso mundo se adapte à perfeição que o espera, é imprescindível tenhamos bastante coragem de raciocinar em termos diversos daqueles que vão regendo a nossa jornada coletiva, de milênios para cá. As condições de luta e aprendizado na Terra alterar-se-ão totalmente quando compreendermos que somos irmãos uns dos outros.

Taciano, na essência, não esposava semelhantes pontos de vista. Nunca pudera ouvir a palavra “fraternidade”, sem revoltar-se. Contudo, menos impulsivo agora, rememorava as conversações que mantivera com o pai, em outro tempo.

Basílio era um autêntico sucessor de Quinto Varro.

Admitiu que o novo amigo estaria igualmente impregnado da mística dos nazarenos, mas detestava ainda o Cristianismo para fazer qualquer pergunta. Para ele, as Divindades Olímpicas  †  deveriam ser obrigatoriamente objeto de exclusiva adoração. Anos antes, teria explodido em considerações rudes e contundentes, mas o sofrimento moral lhe havia alterado o modo de ser e, no fundo, não desejava desfazer tão bela amizade.

Por essa razão, procurou desviar o entendimento e, fixando-o no aspecto filosófico, inquiriu:

— Julgas então que já vivemos outras vida? que já respiramos juntos em outros climas?

O velho bem humorado afirmou, convicto:

— Não tenho qualquer dúvida. E assevero, ainda mais, que ninguém se encontra sem objetivo. A simpatia ou a antipatia não se fazem num minuto. São obras do tempo. A confiança com que nos entendemos, os laços de afeição que nos aproximam, desde ontem, não constituem simples eventualidade. O acaso não existe. Certamente, forças superiores e intangíveis nos reúnem, de novo, para algum trabalho a realizar. Procedemos do passado, assim como o dia de hoje é a continuação do dia de ontem, na sequência das horas. Na Terra, experimentamos e somos experimentados, em marcha constante para outras esferas e, de mundo em mundo, como de degrau a degrau, alcançaremos a gloriosa imortalidade.

As considerações transcendentes de certo iriam longe, mas Lívia e Blandina surgiram, de súbito, e os convidaram, prazenteiras, para um leve repasto de frutas e refrescos.

Os dois amigos aquiesceram, contentes.

Taciano, naquela segunda noite de palestra, mostrava-se mais alegre, mais expansivo.

Reportou-se ao contentamento da filhinha, na expectativa de afeiçoar-se mais intimamente à mestra e comentou os planos que ele mesmo delineara, feliz.

Basílio passaria a residir numa casa próxima da vila Vetúrio, onde o afinador encontraria amplos recursos para instalar-se condignamente com a filha.

Estariam todos, desse modo, em permanente comunhão.

E o entusiasmo, que é sempre o responsável pelos milagres da alegria, materializou o projeto, sem perda de tempo.

Numa semana, verificou-se a desejada alteração.

Pequeno sítio foi alugado para o filósofo, e a primeira manhã de passeio para Taciano, Lívia e Blandina despertou numa admirável festa de luz.

O bosque orvalhado era fartamente percorrido por brisas frescas, que perpassavam pelas flores, carreando-lhes o perfume para longe.

Aves delicadas atitavam e gorjeavam nas árvores esguias e ramalhosas que se mantinham verdes e lindas, como ofertas vivas da terra ao céu sem nuvens.

Enquanto a menina, corada de sol, perseguia, curiosa, um grupo de borboletas, Taciano parou à frente de um ninho cheio de filhotes implumes e, mostrando-o à companheira de excursão, exclamou emocionado:

— Quanta alegria nesta família feliz!

A moça contemplou o quadro, com grande enlevo, e concordou, contente:

— A Natureza é sempre um livro divino.

O patrício fitou-a, com indisfarçável ternura, deixando transparecer os sentimentos indefiníveis que lhe afloravam na alma e considerou:

— Lívia, há momentos em que, por mais se nos fixe a confiança nos deuses, mais se nos torna o coração um labirinto de perguntas sem resposta… Por que motivo um pássaro pode fazer a própria casa em harmonia consigo mesmo e um homem é constrangido a sofrer a influência dos outros, na realização dos menores desejos?!… por que razão corre em paz a corrente de um rio para fundir-se no mar largo, enquanto os dias da alma humana se escoam, atormentados na direção da morte? Haverá mais clemência nas Divindades Imortais para os seres inferiores? Seremos, porventura, consciências caídas no integral esquecimento de si próprias, algemadas à Terra para serviços de purgação?

A jovem, que se conturbara ante a chama afetiva que lhe resplendia no olhar, pronunciou alguns monossílabos, evidenciando o propósito de modificar a conversação, mas Taciano, encorajado com o rubor espontâneo que assomara à face da interlocutora, prosseguiu, carinhosamente:

— Sempre admiti que as tradições familiares devem nortear os nossos sentimentos. Casei-me por isso, em obediência a elas e, dentro delas, formei a pequena família que me segue os passos. Procurei na esposa que os deuses me trouxeram uma irmã para a viagem no mundo. Supunha que o amor, tal como o vemos na existência comum, gerando tantos crimes e tantas complicações, não passasse de mero impulso plebeu das almas menos afeiçoadas à dignidade social. Sinceramente não surpreendi em Helena a amiga que meu espírito aguardava. Tão logo se nos fez mais íntima a experiência em comum, percebi a distância moral em que nos situávamos. Contudo nela encontrei amorosa mãe para minhas filhas e conformei-me.

O moço esboçou amargo sorriso e continuou:

— A vida não foi feita de encomenda para nós, de vez que somos subordinados dela, com o dever de aproveitar-lhe as lições. Cerrei, assim, as portas do ideal e passei a existir, como tantos outros existem, apagando em mim mesmo qualquer despertamento do coração. Agora, porém, que nos vimos, tenho noites mal dormidas… Penso em alguma surpresa da sorte que me faculte a felicidade de aproximar-me de ti, com liberdade bastante para oferecer-te o que tenho… É pouco, bem sei. Mas é o coração inteiro que deseja restaurar-se para ver-te feliz. Tenho imaginado uma vida nossa, essencialmente nossa, a distância deste sítio, onde muitas recordações aflitivas me vergastam a alma…Levaríamos conosco Blandina e teu pai, afastando-nos de tudo o que possa alterar o ritmo de nossa ventura. Mas seria justo imaginar um plano tão arrojado sem ouvir-te?

O moço fitou-a com enternecimento, ansioso por verificar-lhe o estado dalma, notando-lhe a ternura nos olhos marejados de lágrimas que não chegavam a cair.

— Conhecemo-nos, há alguns dias — prosseguiu o moço romano, sensibilizado —, entretanto, guardo a impressão de que somos velhos amigos… Minha esposa e a primogênita, que se afinam imensamente uma com a outra, demorar-se-ão largo tempo em Roma… Não desejo acusá-las de ingratidão, mas tenho razões para supor que ambas não registrariam, por muito tempo, a ausência de Blandina e a minha própria ausência… Somos, em casa, duas pessoas colocadas à margem… Tenho refletido, pois, na possibilidade de uma renovação… Não julgas possível a nossa felicidade em outra parte? Abandonaríamos as Gálias e procuraríamos uma terra diferente, na Ásia ou na África…

Relanceando o olhar pelo arvoredo farto, continuou:

— Esta herdade, não obstante a beleza de que se reveste, é o túmulo das mais belas esperanças de minha mocidade…Um sopro de morte aqui me transformou o destino… Há momentos em que desejaria incendiar os bosques, destruir as plantações, derrubar o palácio e dispersar os servos para arrancar um novo mundo de minha própria solidão, todavia, quem, por mais poderoso, fará realmente o que deseja?

Contemplou a filha adotiva do filósofo, com intraduzível esperança a fluir-lhe do olhar, e tomando-lhe, de leve, a destra, rogou:

— Que me dizes de tantas e tão amargurosas confidências?

Lívia, que a ruborização do rosto fizera mais singular e mais linda, respondeu com tristeza e simplicidade:

— Taciano, meu pai costuma dizer que as almas capazes de tecerem a perfeita ventura conjugal habitualmente se encontram tarde demais. Quando não são surpreendidas pela morte que as separa em plena alegria, são detidas por insolúveis compromissos que lhes inibem a aproximação…

— Meu casamento não é obstáculo intransponível — atalhou o moço, algo perturbado — Helena desvencilhar-se-ia de mim, como quem se livrasse de um fardo.

A moça, contudo, embora serena, acentuou com amargura:

— O grilhão não pesa, entretanto, somente numa das conchas da balança. Eu também sou casada…

O interlocutor sentiu que uma onda de frio lhe gelava o coração, mas permaneceu firme, à escuta.

— Quando meu pai se referiu aos dissabores que nos defrontaram em Massília, reportava-se ao meu inquietante problema pessoal.

A moça fez pequena pausa, dando a ideia de quem acordava a memória, e prosseguiu:

— Há quase dois anos, houve em Massília uma festa ostentosa, em homenagem ao patrício Aulo Sérgio Tuliano, de passagem pela cidade. Instado por amigos, meu pai permitiu que eu me incumbisse de vários números musicais na noite de maior regozijo público. Nessa ocasião, conheci Marcelo Volusiano, um moço que, de imediato, se interessou por minha companhia e que, em poucos meses, se fez meu esposo. Meu pai sempre alegou a necessidade de conhecer-lhe os antecedentes, antes de formular a sua aprovação ao matrimônio, todavia, sentindo-se idoso e enfermo, procurou satisfazer aos meus anseios de moça, porquanto eu não alimentava qualquer dúvida quanto à correção do rapaz que me despertara para as alegrias do amor. Ele asseverava proceder de nobre família, com recursos suficientes para garantir-se em variados negócios e aparentava tanta prosperidade financeira que não vacilei em aceitar como verdade pura as informações com que se nos fazia conhecer. Marcelo, porém, logo após o matrimônio, mostrou-se irresponsável e cruel. Desapareceram dele os modos aristocráticos do amigo de Aulo Sérgio. Além de tirano bem posto, era um jogador impenitente do anfiteatro, mergulhado em atividades escusas. A princípio, meu pai e eu tudo fizemos por subtrair-lhe o vício que o subjugava e, para alcançar esse fim, não hesitei em trabalhar como harpista em festas pagas, acreditando cooperar com ele na solução de débitos numerosos, contudo, cedo reconheci que ele me usava os dotes artísticos para atrair relações importantes, junto das quais obtinha vultosas aventuras financeiras, cuja extensão nunca pude conhecer.

A moça suspirou, magoada pelas dolorosas reminiscências, e prosseguiu:

— Se o problema estivesse limitado aos desgostos de ordem material, provavelmente ainda nos achássemos em Massília, tentando o reajuste. Marcelo entretanto, apesar de minha dedicação afetiva, em seis meses de convivência parecia entediado de meu carinho, e, apaixonando-se por Sublícia Marcina, inteligente poetisa e bailarina de renome, passou a viver em companhia dela, sem abandonar a nossa casa. Tantos espetáculos deprimentes presenciamos que meu pai deliberou a nossa transferência para cá, buscando a nossa renovação…

— E qual é a tua atitude, à frente do patife que assim procedeu? — atalhou Taciano, sob forte impulsividade.

— Como toda mulher — esclareceu Lívia, cuja profundez filosófica, aliada à frescura juvenil, tornava admirável naquela hora —, sofri muito, a princípio, mas, com o auxílio do Céu, o meu ciúme acabou em piedade. Julgo Marcelo demasiadamente infeliz para condená-lo. Não creio possa ele desfrutar a tranquilidade de uma vida digna.

Taciano fitou-a com admiração e pesar e considerou, afetuoso:

— Por que razão pensas desse modo? Não é comum semelhante atitude numa jovem que ainda não alcançou os vinte anos!… Acaso, não serás tão mulher quanto as outras?

Lívia, porém, sorriu algo triste e observou:

— Não tive mãe que me quisesse. Devo a minha compreensão ao pai que me acolheu! Desde cedo, habituei-me a acompanhá-lo nas digreções filosóficas e a interpretar a vida, segundo as realidades que o mundo nos oferece. Na época em que quase todas as meninas estão perturbadas pela ilusão, fui conduzida à responsabilidade e ao trabalho. Em Massília, tudo nos custou caro ao esforço pessoal e, por isso, aprendi que não atingiremos a paz sem desculpar os erros alheios que, em outras circunstâncias, poderiam ser nossos…

— Não sentes, então, saudades do homem que amaste? não lhe disputarias a posse?

— Porquê? — indagou a interlocutora, serena. — As saudades que eu possa experimentar não devem impedir o Céu de mostrar-me o melhor caminho. Bom seria se eu pudesse partilhar a felicidade com meu esposo, entretanto, se esse convívio me constrangesse a cometer um crime, em desacordo com a retidão de minha consciência, não será mais justo o benefício da ausência? Quanto a disputar atenções e carinhos de outrem, não creio seja o amor objeto de leilão. O afeto, a confiança e a ternura, a meu ver, devem ser tão espontâneos quanto as águas cristalinas de um manancial.

— Não acreditas, porém, na sobrevivência da felicidade noutros moldes? — E, baixando o tom de voz, que se fizera mais doce, o marido de Helena perguntou: — Não admites a nossa capacidade de construir novo ninho, em novo campo de compreensão e ventura?

Lívia, extremamente enrubescida, lançou-lhe inesquecível olhar e concordou:

— Sim, creio! Sinto em tua dedicação nobre e calma uma praia linda e segura, capaz de proteger o barco de meu destino contra todos os vendavais. Amo-te muito! Descobri esta verdade, logo que nos vimos pela primeira vez! Compreendo, agora, que Marcelo me trouxe os encantamentos da menina, ao passo que, em tua companhia, assinalo em mim os anseios da mulher… A nenhuma glória feminina poderia eu aspirar mais alta que a de compartir de teus sentimentos, entretanto, não mais nos pertencemos…

Anotando-lhe a última frase, marcada de desapontamento e amargura, o filho de Varro interrompeu-lhe a palavra, considerando, impulsivo:

— Se me queres e se eu te quero tanto, porque nos prendermos aos que nos desprezam? Renovaremos a própria sorte, seremos felizes, teu pai entender-nos-á…

Lívia desatou o pranto de emotividade que lhe dominava o coração, e falou em voz entrecortada:

— Possuis, ligada ao teu nome, a esposa que te premiou com duas filhinhas…

— Minha esposa? — ponderou o interlocutor, inquieto — e se eu te dissesse que ela não encontrou em mim o homem que esperava? e se eu te afirmasse, com provas inequívocas, que ela se consagrou a outra espécie de amor?

A moça suspirou, aflita, e comentou:

— Não duvido de teus informes, contudo, o tempo e o espírito de sacrifício podem modificar a situação…

E, indicando a menina que brincava, distante, acrescentou com firmeza:

— Blandina é também um amor que confia em nós. Se adotássemos uma conduta igual à daqueles que nos ferem, talvez lhe envenenássemos irremediavelmente o coração. De que nos valeria arrebatá-la aos braços maternos? Estaria presa, em espírito, a estas árvores da sua primeira infância… A separação lhe faria ver uma heroína inolvidável na mãezinha que lançaríamos com o nosso gesto ao menosprezo, e a devoção que desejaríamos dela receber, pura e simples, provavelmente estaria transformada em desconfiança e dor… Se algum dia deve provar o fel da verdade, que o cálice de angústia lhe seja imposto por outras mãos…

Taciano fitou a pequena, de longe, e calou-se, de voz embargada pela comoção.

— Estaremos juntos! — esclareceu a moça, reanimando-o — o amor, acima de tudo, é entendimento, carinho, comunhão, confiança, manifestação da alma que pode perdurar sem qualquer compromisso de ordem material… Encontrar-nos-emos em Blandina, que será nosso ponto de referência afetiva. Os dias passarão sobre nós como vagas de beleza e esperança e… quem sabe o futuro? Talvez o tempo…

Antes, porém, que pudesse terminar a frase, a menina alcançou-os, com belo sorriso, a oferecer-lhes soberbo ramo de gerânios encarnados.

O genitor refugiou-se no silêncio e a pequenina dominou a conversação, contando graciosas aventuras.

Daí a instantes, o trio retomava o caminho de volta.

No átrio da modesta casa que passara a habitar, Basílio aguardava-os com visíveis sinais de impaciência.

Em reduzidas palavras deu conta da preocupação que o afligia.

Marcelo aparecera, inesperadamente.

Lívia empalideceu e tentou, com delicadeza, evitar um encontro entre os dois homens; todavia, Taciano, de semblante nublado, resolveu entrar e conhecê-lo, de perto.

O rapaz, que se abeirava dos trinta anos, era alto, de compleição elegante, mostrando formosa cabeleira a emoldurar-lhe os olhos móveis na fisionomia enigmática.

Abraçou a esposa, com alegria, como se nada houvesse acontecido de grave entre os dois, e saudou Taciano, efusivamente, chegando a desconcertá-lo. Parecia até satisfeito em observar a mulher, em companhia de um amigo novo, como quem se aliviava de um fardo na consciência.

Em minutos, relacionou o objetivo da viagem que o trazia.

Viera a Lião, acompanhando alguns cantores de renome que se destinavam a grandes exibições artísticas.

Entretanto — acrescentava ele, talvez para prevenir indiretamente a esposa —, não podia demorar-se.

Diversos companheiros aguardavam-lhe o regresso em Viena. Uma bela festa em casa de Tito Fúlvio, abastado patrício de suas relações, compelia-o a retorno imediato.

O pai de Blandina percebeu no recém-chegado um espírito inteiramente diverso da família a que se afeiçoara.

Marcelo era turbulento, exibicionista, palrador.

Dava a ideia de um menino inteligente a brincar de viver. Não apresentava, no verbo fácil, qualquer frase que denotasse madureza de raciocínio.

Trazia a mente apaixonada pelos assuntos do anfiteatro, do qual era frequentador inveterado. Sabia o número de feras enclausuradas nas jaulas de Massília, quantos gladiadores podiam ali brilhar na arena e quantas bailarinas viviam na cidade, dignas do aplauso público, mas ignorava o nome de quem governava a próspera Gália Narbonense onde vivia, e desconhecia completamente as suas indústrias e tradições.

Taciano, que o escutava, a princípio, com disfarçado rancor, depressa lhe reconheceu a fatuidade e passou a examiná-lo com mais calma e menos severidade.

No fundo, porém, sentia-se aborrecido.

Aquele visitante inesperado era um trambolho no caminho. Se pudesse, exilá-lo-ia no fim do mundo.

A ideia de liquidá-lo em alguma emboscada bem feita agitou-lhe o pensamento, contudo, não nascera com a vocação de assassino e, por isso, expulsou a tentação que se lhe insinuava na cabeça.

Não vacilaria, porém, na mobilização de todos os recursos para afastá-lo.

Enquanto Marcelo se detinha, loquaz, na descrição das próprias bravatas, o filho de Varro refletia sobre a melhor maneira de empenhar amigos no afastamento do intruso.

Absolutamente distanciado da conversação, imaginava como desterrar o marido de Lívia para algum ponto remoto.

Não lhe suportaria a presença.

Remove-lo-ia a qualquer preço.

Foi quando o próprio Marcelo lhe ofereceu o ensejo desejado, exprimindo o propósito de voltar a Roma.

Sentia-se asfixiado por dificuldades financeiras.

Só a grande metrópole lhe facultaria lucro fácil, à altura de sua expectativa.

Taciano surpreendeu a brecha que buscava.

Mostrou radiante expressão no rosto e esclareceu que podia apresentá-lo a Cláudio Lício, sobrinho do velho Eustásio que a morte já havia levado, e que, em Roma, se fizera acatado na organização e direção de jogos no circo. Crescera em Lião, de onde partira demandando aventuras coroadas de êxito, e fizera-se benquisto de muitos políticos que lhe não negariam cooperação e favor. Marcelo, decerto, encontraria excelente colocação para os seus dotes intelectuais, orientando artistas diversos.

Havia tanta segurança na palavra do novo amigo que o genro de Basílio, entusiasmado, lhe aceitou a proposta sem hesitar.

Expressiva mensagem foi escrita.

O filho de Quinto Varro pedia ao companheiro de mocidade ocupasse o recomendado em algum encargo rendoso e condigno.

Lida a carta, Marcelo prorrompeu em bombásticos agradecimentos e, sem qualquer consideração para com a mulher e para com o sogro, decidiu a viagem para Viena no mesmo dia. Prometeu tornar, em breve, a fim de combinar com os familiares quanto ao futuro. Referiu-se às virtudes da companheira, como se devesse alimentar-lhe o carinho à custa de elogios e reafirmou ao velho mil protestos de amizade e admiração.

E à feição de um pássaro inquieto, feliz por ver-se livre, despediu-se, ruidosamente, descendo com outros amigos para a cidade próxima.

Começou, então, para a vila Vetúrio formoso período de harmonia e restauração.

Três noites por semana, o palácio era abrilhantado com música primorosa e conversação sadia. Enquanto Lívia e Blandina cantavam ao som de harpas e alaúdes, Taciano e Basílio comentavam Hermes e Pitágoras, Vergílio e Ulpiano, em preciosos torneios de inteligência.

Semanas e semanas de felicidade corriam, céleres, quando Teódulo regressou à herdade, trazendo notícias.

Helena dirigia ao esposo longa carta, comunicando-lhe a determinação de permanecer em Roma, por alguns meses, não só para satisfazer ao genitor doente, como também para solucionar o problema da filha. Galba, fatigado de prazeres, parecia disposto a desposar Lucila. Era simples questão de tempo.

Taciano não prestou maior atenção ao assunto e passou a dispensar ao preposto de Opílio glacial tratamento.

Teódulo percebeu-lhe a frieza e jurou vingar-se.

Astuto e malicioso, compreendeu que entre o marido de Helena e a filha de Basílio existiam os mais entranhados laços de afeto e imaginou-lhes as relações mais íntimas, segundo os pensamentos escuros de que se alimentava.

Absteve-se de qualquer visita pessoal ao filósofo, mas, ciente de que o velho e a jovem se ausentavam de casa, uma noite por semana, com destino ignorado, acompanhou-os, sutilmente, certa feita, vindo a saber que ambos eram cristãos, frequentando, discretamente, o culto detestado. Guardou segredo e entrou em regime de grande reserva e não menor isolamento, apenas comunicando a Taciano que trazia ordens de Vetúrio para viajar entre Lião e Roma, enquanto Helena estivesse no domicílio paterno, tantas vezes quantas se fizessem necessárias.

A vida prosseguia sem surpresa e sem saltos.

O filho de Varro, novamente feliz, não suspeitava que a dor lhe sitiava o destino, com dureza implacável.


Emmanuel





Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano


VÍDEO:

Seminário - Livro Ave, Cristo! 
FEBtv - Tv da Federação Espírita Brasileira

Apresentação: Saulo César




Saulo César faz uma série de seminários, sábados das 10h às 12h em parceria com a Web Rádio Fraternidade.
Transmitido ao vivo em 6 de jun. de 2020