
Joanna de Ângelis - Livro Em Busca da Verdade - Divaldo P. Franco - Cap. 5
Experiências de iluminação
A existência terrena é uma experiência de aprendizagem valiosa, através da qual o Self, em sua essência superior, penetra nos arquivos grandiosos do inconsciente coletivo e individual, para bem o assimilar, ampliando a sua capacidade de discernimento e de conquistas libertadoras.
Desalgema-se, em consequência, das injunções do passado, porque as compreende, elucidando os enigmas que lhe permanecem em latência, não mais gerando conflitos psicológicos, e abre-se à Essência Divina, o Arquétipo primordial, logrando a plenitude do numinoso.
Nessa conquista, a individuação torna-se-lhe plena e enriquecedora, tornando-se um verdadeiro reino dos Céus, porque sem aflição nem qualquer inquietação.
Cada experiência no carreiro orgânico faculta-lhe conquistar mais conhecimentos e melhor capacidade para desenvolver os sentimentos, aumentando a habilidade para entender-se, para compreender as demais criaturas e amar-se, amando-as.
Não fossem tais oportunidades, e não haveria como compreender-se as diferenças psicológicas, intelectivas, morais, orgânicas, econômicas, de saúde, que caracterizam a mole humana.
Reduzindo-se o ser a uma única existência corporal, ei-lo fadado a carregar o peso do acaso feliz ou desventurado, impondo-lhe um destino que não tem direito nem recurso para modificar, submetendo-se, inerme, às injunções desgovernadoras da fátua ocorrência.
Através das reencarnações, no entanto, o livre-arbítrio faculta-lhe a eleição do bem ou do mal sofrer, da alegria ou da tristeza, da desgraça ou da ventura, porquanto a única fatalidade que existe, melhor dizendo, o determinismo que se lhe impõe é a plenitude, que cada qual adquire conforme o empenho e a luta a que se consagre.
Assim sendo, a aprendizagem do bem-viver, do desfrutar da saúde integral é feita mediante erros e acertos, como tudo quanto diz respeito à existência em qualquer forma através da qual se expresse.
O equívoco de agora enseja-lhe reparação posterior, o acerto de um momento abre-lhe espaço para novas conquistas, impulsionando-o irremediavelmente para a harmonia consigo mesmo e com o Cosmo.
A viagem evolutiva, embora seja individual, impõe relacionamentos valiosos que contribuem para resultados amplos e benéficos, favorecendo toda a sociedade com os recursos para que vicejem condições gerais de equilíbrio entre todos, e, por consequência, de paz e de bem-estar.
Ninguém pode esperar por felicidade a sós, porquanto, a própria solidão constitui um transtorno grave de conduta, empurrando o indivíduo para a alienação.
A existência terrena tem uma finalidade primordial e impostergável, que é a unificação do ego com o inconsciente, onde se encontram adormecidos todos os valores jamais experiênciados e capazes de produzir a individuação.
Integrar-se no Arquétipo primordial em a perda da própria consciência, da sua individualidade, é o objetivo da vida humana, após vencidas as diferentes etapas orgânicas e psicológicas da sua evolução.
A força geratriz para essa conquista é o Self totalmente libertado da sombra e dos conflitos contínuos entre a anima-us(1).
Os relacionamentos desenvolvem a capacidade de crescimento e de compreensão do sentido existencial, assim como da necessidade de alcançar-se os objetivos anelados.
Nesse esforço, o ego escravizado às paixões vê-se compelido à libertação, à aliança com as demais pessoas, reconhecendo os próprios limites enquanto alcança outros níveis de entendimento e de conduta.
No inicio do tentame, quando escasseia a maturidade psicológica, antes da expulsão do paraíso, o ego toma todo o espaço do Self, como se estivessem ambos no Jardim do Éden, sem separação, sem diálogo, sem consciência.
À medida, porém, que vem a expulsão do paraíso, adquirese o equilíbrio da consciência, quando o ego se libera, embora ainda ocupando uma grande área no Self.
Por fim, ego e Self em um eixo de harmonia faz-se quase consciente, facultando a presença de Deus no imo, o retorno ao Arquétipo primordial.
Jesus sabia dessa ocorrência, e, por essa razão, misturou-se às massas desesperadas, imaturas psicologicamente, sofridas, compartilhou Suas lições com todos, envolveu-Se nos dramas do dia a dia, experienciou as dificuldades do trabalho manual, exemplificando que a luta é o clima de crescimento do ser humano, e os grandes inimigos estão no seu mundo interior e jamais no externo, convidando à saída do epicentro do Separa a aquisição da consciência.
Aqueles que se apresentam como adversários de fora nada podem fazer, realmente, de prejudicial, a quem é livre internamente, a quem venceu os impulsos e superou as tendências agressivas.
No entanto, encontrando-se preso aos interesses mesquinhos da superficialidade, rivaliza com esses que se lhe tornam inimigos, porque facilmente se fazem também inimigos.
O máximo que pode realizar o adversário é criar embaraços na marcha do progresso da vítima, atentar contra os seus valores ou até mesmo contra a sua vida física.
Não consegue ir além disso, porque não lhe atingirá a realidade de ser imortal que é, portanto, invencível, desde que não se deixe dominar pelas veleidades, pelas paixões do primarismo animal por onde transitou.
A grande viagem, iniciada com a expulsão do paraíso, vai ensejar o conhecimento das possibilidades de vitória nas renhidas lutas, novo Adão que é obrigado ao trabalho com suor, com renúncia e esforço, a fim de autodescobrir-se e conseguir o diálogo entre o ser que aparenta e o ser que é — Espírito indestrutível!
A criança que existe em todos inevitavelmente cresce e desenvolve a capacidade de entendimento, a necessidade de libertação, a busca do Si-mesmo, a aventura que lhe dá experiência, a fim de realizar mais tarde, a volta para casa.
Ocorre, então, a primeira mudança na psique coletiva, porque sucedeu a mudança individual, o crescimento do ser, a alteração do inconsciente, avançando para Deus, com a inevitável modificação das construções do mundo psíquico.
Nesse retorno, não existe a culpa, mas a consciência, pois que ambas surgiram ao mesmo tempo, desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, saíram da ignorância de Si-mesmos, para os enfrentamentos.
Após o mito da desobediência, ambos dão-se conta das diferenças anatômicas e escondem-se, envergonhados, em face da libido que surge - a malícia - e fogem também de Deus, ocultando-se, mas nunca do deus interno que os acompanhará em todos os transes e trânsitos, descobrindo os opostos, sentindo as necessidades.
A criança, que neles existia, cede lugar aos adultos, aos seres formados para a procriação, para o desenvolvimento, não mais para a inocência, a ignorância permanente da sua realidade.
A psique amadurece, amplia o seu raio de entendimento e de ação, engrandece-se, faculta a fissão dos eus, de modo que o ego se espraie, que surjam a sombra, os anima-us, que se conquistem os espaços naturais, de maneira a criar o diálogo, a interação do eixo perfeito entre ele e o Self.(2)
Essa viagem para a casa paterna já não tem retorno.
Joanna de Ângelis
* O self é o Eu Maior, o espírito (ou a essência divina dentro de cada ser), que age como um centro organizador e a totalidade psíquica. Ele se diferencia do ego, que é a personalidade da encarnação atual. O self impulsiona a evolução e a individuação (integração psíquica), guiando o indivíduo através de uma voz interior que se alinha à consciência e à lei de Deus.
(1) Utilizar-nos-emos, em tempo, da expressão anima-us para significar a anima e o animus. Nota da autora espiritual
(2) Descreve um processo de amadurecimento psicológico em que o ego se expande ao se integrar com outros aspectos da psique, como a "sombra" e os "animus/anima", promovendo uma maior autocompreensão e a criação de um diálogo interno mais completo entre o ego e o Self. Essencialmente, é a expansão da consciência para além do ego, resultando em um ser mais completo e integrado.
Fonte: Em Busca da Verdade-pdf
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