O Universo é um poema sublime do qual começamos a soletrar o primeiro canto. Apenas discernimos algumas notas, alguns murmúrios longínquos e enfraquecidos! Já essas primeiras letras do maravilhoso alfabeto musical nos enchem de entusiasmo. Que será quando, tornados mais dignos de interpretar a divina linguagem, percebermos, compreendermos as grandes harmonias do Espaço, o acorde infinito na variedade infinita, o canto modulado por esses milhões de astros que, na diversidade prodigiosa de seus volumes e dos seus movimentos, afinam as suas vibrações por uma simpatia eterna?
Perguntar-se-á, porém: Que diz essa música celeste, essa voz dos céus profundos?
Essa linguagem ritmada é o Verbo por excelência, aquele pelo qual todos os mundos e todos os seres superiores se comunicam entre si, se chamam através das distâncias; pelo qual nos comunicaremos um dia com as outras famílias humanas que povoam o Espaço estrelado.
É o princípio mesmo das vibrações que servem para traduzir o pensamento, a telegrafia universal, veículo da ideia em todas as regiões do Universo, linguagem das almas elevadas, entretendo-se de um astro ao outro com as suas obras comuns, com o fim a atingir, com os progressos a realizar.
É ainda um hino que os mundos cantam a Deus, ora cântico de alegria, de adoração, ora de lamentações e de prece; é a grande voz das coisas, o grito de amor que sobe eternamente para a Inteligência ordenadora dos universos.
Quando, pois, saberemos destacar os nossos pensamentos e elevá-los para os cimos? Quando saberemos penetrar esses mistérios do céu e compreender que cada descobrimento realizado, cada conquista prosseguida nessa senda de luz e de beleza, contribui para enobrecer o nosso espírito e para engrandecer a nossa vida moral e nos proporcionar alegrias superiores a todas as da matéria?
Quando, pois, compreenderemos que é lá, nesse esplêndido Universo, que o nosso próprio destino se desenvolve, e estudá-lo é estudar o próprio meio onde somos chamados a reviver, a evolver sem cessar, penetrando-nos cada vez mais das harmonias que o enchem? Que em toda a parte a vida se expande em florescências de Almas? Que o Espaço é povoado de sociedades sem-número; às quais o ser humano está ligado pelas leis de sua natureza e de seu futuro?
Ah! Quanto são de lamentar aqueles que desviam os seus olhares desses espetáculos e o seu Espírito desses problemas! Não há estudo mais impressionante, mais comovente, revelação mais alta da ciência e da arte, mais sublime lição!
Não: o segredo da nossa felicidade, do nosso poder, do nosso futuro, não está nas coisas efémeras deste mundo; reside nos ensinamentos do Alto, do Além. E os educadores da Humanidade são muito inconscientes ou muito culpados, porque não cuidam de elevar as Almas para os cimos onde resplandece a verdadeira luz.
Se a dúvida ou a incerteza nos assediam; se a vida nos parece pesada; se tateamos na noite à procura do fim; se o pessimismo e a tristeza nos invadem; acusemos a nós próprios, porque o grande livro do Infinito está aberto aos nossos olhos, com as suas páginas magníficas, das quais cada palavra é um grupo de astros, cada letra um sol – o grande livro onde devemos aprender a ler o sublime ensinamento. A Verdade ali está escrita em letras de ouro e de fogo; chama solícita aos nossos olhos – Verdade –, realidade mais bela que todas as lendas e todas as ficções.
É ela quem nos conta a vida imperecível da Alma, as suas vidas renascentes na espiral dos mundos, as estações inumeráveis no trajeto radioso, o prosseguimento do eterno bem, a conquista da plena consciência, a alegria de sempre viver para sempre amar, sempre subir, sempre adquirir novas potências, virtudes mais altas, percepções mais vastas. E, acima da possessão da eterna Beleza, a felicidade de penetrar as leis, de associar-se mais estreitamente à obra divina e à evolução das Humanidades.
Desses magníficos estudos, a ideia de Deus se expande mais majestosa, mais serena. A ciência das harmonias celestes vale um pedestal grandioso sobre o qual se erige a augusta figura – Beleza soberana cujo brilho, muito ofuscante para os nossos fracos olhos, fica ainda velado, mas irradia docemente através da obscuridade que a envolve.
Ideia de Deus – centro inefável para onde verguem e se fundem, em síntese sem limites, todas as ciências, todas as artes, todas as verdades superiores –, tu és a primeira e a última palavra das coisas presentes ou passadas, próximas ou longínquas; tu és a própria Lei, a causa única de todas as coisas, a união absoluta, fundamental, do Bem e do Belo, que reclama o pensamento, que exige a consciência e na qual a Alma humana encontra a sua razão de ser e a fonte inesgotável de suas forças, de suas luzes, de suas inspirações.
Do tombadilho do navio que me conduz, contemplo a imensidade das águas. Até os confins do firmamento, o mar expõe sua toalha móvel, faiscante aos fogos do dia. Nem uma nuvem, nem um sopro. O sol do Meio-dia acende fugitivos relâmpagos na crista das vagas. Sobre esse vasto espelho, sua luz se expande em esbatidos delicados, em arrepios instáveis. Ela envolve as ilhas, os cabos e as praias de uma leve claridade; adoça o horizonte, idealiza-lhe as perspectivas longínquas. Os raros passageiros dormem a sesta; o tombadilho está deserto. O silêncio só é perturbado pelo ruído da hélice e pelo cântico das vagas que acariciam brandamente o casco do navio. Por toda parte, em volta, reina profunda paz. Em parte alguma senti tal impressão de repouso. É como que uma pacificação, uma serenidade, um desprendimento de tudo, o esquecimento das miseráveis agitações humanas, uma dilatação da Alma, uma espécie de volúpia de viver, e de saber que se viverá sempre, a sensação de ser imperecível qual esse infinito da Terra e do Céu.
As costas douradas da Provença parecem fugir; a proa do paquete, orientado para a África, fende as águas azuis. O Mediterrâneo é encantador sob o céu azulado; mas, todos os mares têm o seu prestígio e beleza, quer em seus dias de cólera e de desencadeamento furioso, com a comovente fascinação das vagas espumosas, quer nas horas de calma, com o esplendor de seus sóis poentes. Seus horizontes sem limites levam a Alma à contemplação das coisas eternas e aos sonhos divinos. Quase todos os marinheiros são idealistas e crentes.
Nossas costas de França são banhadas por dois mares. O Mediterrâneo é belo pela harmonia dos contornos, pela limpidez da atmosfera, pela riqueza de seu colorido. O Oceano é imponente em seus tumultos, e assim em seus recolhimentos, com as grandes vagas que varrem as areias duas vezes por dia, seu céu agitado, muitas vezes sombreado, e seu grande sopro purificador. É principalmente dos altos promontórios armoricanos que o oceano é majestoso de ver, nas horas de furor, quando a vaga se precipita, roncando sobre os recifes, mugindo nas enseadas profundas e secretas, ou rolando, a estrondear, na sombra das cavernas talhadas na rocha. O queixume do mar tem qualquer coisa de penetrante, de solene, que torna a solidão mais triste, mais impressionante. O grito dos maçaricos, dos guinchos, das gaivotas, que voam girando no meio da tempestade, aumenta a desolação da cena. Toda a costa se torna branca de espuma. Aos pés do observador, o solo treme a cada embate surdo da vaga.
Do cabo da Cabra, do Raz de Sein, da ponta de Pernmarch, o espetáculo tem o mesmo caráter de grandeza épica e selvagem. Por toda parte, montões de rochas enegrecidas prolongam o continente, assim como outros tantos fragmentos arrancados à ossatura do globo pelo furor das águas. Longas filas de destroços estendem-se, testemunhando combates seculares que a onda empreende contra o áspero granito. É um cais formidável, em que os elementos desencadeados turbilhonam e se precipitam na terra, que geme sob esses golpes redobrados.
O mar acalmou; o vento se apaziguou. A noite desceu e os cintilamentos de estrelas se acendem no azul profundo do céu. Os faróis brilham com eclipses e iluminam as sendas do largo. O silêncio se faz, perturbado somente pela grande melopeia do oceano, que se eleva grave, contínua, semelhante a uma salmodia, a uma encantação. Que a diz? Igual a todas as harmonias da Natureza, fala da Causa suprema, da obra imensa e divina. Lembra-nos quanto o homem é pequeno por sua forma material, diante da majestade das águas e do céu; quanto é grande por sua Alma, que pode abarcar todas as coisas, saborear-lhe as belezas, desenvolver os seus ensinamentos.
Que homem não experimentou esse sentimento misterioso, que nos retém, contemplativo e sonhador, diante do espetáculo do mar? Em alguns, segundo o grau de evolução, é uma espécie de estupor admirativo, misturado de temor; em outros, é uma comunhão íntima e muda que os invade de modo completo.
Cada elemento manifesta a seu modo os segredos de sua vida profunda. A Alma humana, por seus sentidos interiores, percebe essa linguagem. As coisas tendem para nós outros, sem nunca nos atingirem. Nossa Alma vai para as coisas, sem conseguir penetrá-las completamente, mas delas se aproxima bastante para sentir o parentesco que nos reúne. Daí, entre a Natureza e nós outros, laços, relações múltiplas e ocultas. Essa fusão com a alma Universal se traduz por uma embriaguez de vida que nos penetra por todos os poros, embriaguez que a palavra não poderia exprimir. O mar, e assim a montanha, agem sobre a nossa vida psíquica, nossos sentimentos e pensamentos, e, por essa comunhão íntima, a dualidade da Matéria e do Espírito cessa um instante, para se fundir na grande unidade que tudo gerou. Sentimo-nos associados às forças imensas do Universo, destinados, seres e forças, a representar, de maneira diversa, um papel nesse vasto teatro.
O mar é um grande regenerador. Sem ele, a terra seria estéril e infecunda; em seu seio se elaboram as chuvas benéficas; todo o sistema de irrigação do globo a ele deve o nascimento. Sua efusão de vida é sem limites. Essa grande força salutar, embora áspera e selvagem, atenua nossas fraquezas físicas e morais. Pelo perpétuo perigo que apresenta, o mar é uma escola de heroísmo. Comunica ao homem suas energias; dá-lhe o pensamento, o caráter, esse modo sério, recolhido, esse conselho particular de calma e de gravidade que caracteriza as populações costeiras. Com seus sopros vivificantes, tempera ao mesmo tempo os corpos e as vontades; proporciona a tolerância e o vigor. Por isso, tem seus fiéis, seus amantes, seus devotos. Apesar de suas cóleras, revoltas e perigos constantes, quantos com ele largamente trataram não podem mais dele separar-se; ficam-lhe ligados por todas as fibras do ser.
O vasto mar é a imagem do poder, da extensão, da duração. Todos quantos o têm descrito, comparam o globo a um organismo vivo, felizes por perceberem em alguns dias de estio as suas pulsações. O fluxo e refluxo são a sua respiração. Durante a noite, ouvindo ao longe o rumor monótono da vaga, tive muitas vezes a impressão de que o oceano respira, qual um Leviatã adormecido. Suas grandes correntes fazem irradiar até às extremidades do mundo o calor e a eletricidade.
Há em nosso planeta dois centros intensos de vida: Java e o mar das Antilhas, cercados por dois círculos de vulcões, formidáveis focos de vitalidade e de atividade submarina. Dois enormes rios deles se destacam semelhantes a aortas, e vão aquecer o hemisfério boreal. Mary lhes chamou “duas vias-lácteas do mar”. Outras correntes secundárias vão fecundar o Oceano Índico, banhando a vasta rede de ilhas, de recifes e de bancos em que o trabalho dos pólipos estabelece as bases de um continente futuro. Se o mar tem palpitações, também possui espasmos e convulsões. Entretanto, sua verdadeira personalidade não se revela nos acidentes ou nas crises de sua superfície; as mais violentas tempestades não agitam senão parte muito fraca de sua massa líquida. Para conhecê-lo, é necessário estudá-lo em suas profundezas misteriosas.
Ali, a uma profundidade de oito mil metros, agita-se uma vida obscura, estranha, iluminada por fenômenos de fosforescência que aclaram, com alvores fantásticos, as noites silenciosas dos abismos.
Seres luminosos aí pululam; quando atraídos à superfície, brilham um instante em esteiras de fogo, em feixes cintilantes, mas para se extinguirem logo. Suas formas são infinitamente variadas; apresentam os aspectos e as cores mais inesperadas: rosáceas de catedral, rosários de pérolas e de coral, lustres de cristal de ricos candelabros; estrelas marinhas, tintas de verde, de púrpura, de azul. Essa aparição fugitiva é um deslumbramento; dá-nos uma ideia enfraquecida das maravilhas que se encerram nas criptas secretas do mar. Depois, são vegetações de contos de fadas, sargaços gigantescos, nácares, esmaltes de brilhantes cores, florestas de corais, gorgônias e Ísis, todo um mundo singular, primeiro rebate de vida, esforço de um pensamento que aspira à luz. Quantos mistérios no fundo dessas trevas! Quantos continentes devorados, cidades outrora florescentes, jazem também sob o sudário das grandes águas!
Esse foi o cadinho gigantesco em que se elaboraram as primeiras manifestações da vida. Ainda hoje ela é a mãe, a nutriz fecunda por meio da qual se desenvolvem as existências prodigiosas, a seiva transbordante, da qual nada, nem a raiva destrutiva do homem, nem as causas reunidas de mortalidade, de luta, de guerra entre as espécies, podem minorar a intensidade. O poder de reprodução de certas famílias é tal que, sem as forças que a combatem e lhe atenuam os efeitos, o mar ter-se-ia, há muito tempo, transformado em massa sólida.
Os arenques vogam em bandos inumeráveis, em torrentes de fecundidades. Cada fêmea contém a média de cinquenta mil ovos e cada ovo se multiplica por sua vez por cinquenta mil. O bacalhau, que se alimenta do arenque, tem nove milhões de ovos (o terço do seu peso), e gera nove meses sobre doze. O solho, que devora o bacalhau, não é menos prolífico. Somente essas três espécies, em seu ardor de reproduzir, teriam conseguido coagular o oceano, sem os elementos de morte que vêm restabelecer o equilíbrio.
Por aí a imolação se torna benfazeja, porque, sem o combate às espécies, seria rota a harmonia e a vida pereceria pelo seu próprio excesso.
Para o mundo dos mares a obra essencial é amar e multiplicar! Quando se examina a água salgada ao microscópio, em certas regiões, ela apresenta quantidades aterradoras de ovos, de germens, de infusórios. O oceano é comparável a uma imensa cuba sempre em fermentação de existências, sempre em trabalho de parturição. A morte aí produzirá a vida; sobre os resíduos orgânicos dos seres destruídos, outros organismos aparecem e se desenvolvem incessantemente!
Léon Denis - Livro O Grande Enigma - 2ª Parte - O Livro da Natureza - Cap. 14
Elevação
Espírito, Alma, tu que percorres estas páginas, donde vens e para onde vais? Sobes do fundo do abismo e galgas os degraus inumeráveis da escada da vida. Tu caminhas para as moradas eternas, onde a grande Lei nos chama e para as quais a mão de Deus nos conduz. Vais para a Luz, para a Sabedoria, para a Beleza!
Contempla e medita! Por toda a parte, obras belas e potentes solicitam a tua atenção. No seu estudo, haurirás, com coragem e confiança, o justo sentimento do teu valor e do teu futuro. Os homens só se odeiam, só se desprezam, porque ignoram a ordem magnífica pela qual estão todos estreitamente aproximados.
O teu caminho é imenso; mas o fim excede em esplendor tudo quanto podes conceber. Agora pareces bem pequeno no meio do colossal Universo; mas tu és grande pelo pensamento, grande pelos teus destinos imortais.
Trabalha, ama e ora! Cultiva a tua inteligência e o teu coração! Desenvolve a tua consciência; torna-a mais vasta, mais sensível. Cada vida é um cadinho fecundo, de onde deves sair purificado, pronto para as missões futuras, maduro para tarefas sempre mais nobres e maiores. Assim, de esfera em esfera, de círculo em círculo, prosseguirás na tua carreira, adquirindo forças e qualidades novas, unido aos seres que amaste, que vivem e reviverão contigo.
Evolverás em comum, na espiral das existências, no seio de maravilhas insuspeitadas, porque o Universo, e assim tudo, se desenvolve pelo trabalho e expande as suas metamorfoses vivas, oferecendo gozos, satisfações sempre crescentes, sempre renovadas, às inspirações, aos puros desejos do Espírito!
Nas horas de hesitação, volta-te para a Natureza: é a grande inspiradora, o templo augusto em que, sob os véus misteriosos, o Deus escolhido fala ao coração do prudente, ao Espírito do pensador. Observa o firmamento profundo: os astros que o povoam são os estádios de tua longa peregrinação, as estações da grande via a que o teu destino te conduz.
Vem! Elevemos as nossas Almas; paira um instante comigo, pelo pensamento, entre os sóis e os mundos! Mais alto, sempre mais alto, no éter insondável! Lá embaixo, a Terra não é mais que um ponto na vasta extensão. Diante de nós e acima de nós, os astros se multiplicam. Por toda a parte, esferas de ouro, fogos de esmeralda, safira, ametista e de turquesa descrevem os seus movimentos ritmados. Nos nossos rumos, voga um astro enorme, arrastando uma centena de mundos planetários na sua órbita, centenas de mundos que evolucionam em curvas sábias. Apenas entrevisto, ei-lo que já foge, continuando a carreira com o seu esplêndido cortejo (i). Depois dele, apresentam-se dez sóis, de cores diferentes, agrupados na mesma atmosfera luminosa que os cerca, como que a formar uma faixa de glória.
E sempre os sistemas sucedem aos sistemas, paraísos ou galés flutuantes, mundos magníficos, vestidos de azul, de ouro e de luz. Mais longe, os cometas errantes, as pálidas nebulosas das quais cada átomo é um sol no berço. (ii) Todos esses mundos são as moradas de outras sociedades de Almas. Até pelas longínquas estrelas, cujos alvores trémulos levam centenas de séculos a chegar ao nosso orbe, por toda a parte, a família humana estende o seu império; por toda a parte temos irmãos celestes. Somos destinados a conhecer todas essas moradas e a gozá-las. Reviveremos nessas terras do Espaço, em novos corpos, a fim de aí adquirir forças, conhecimentos, méritos maiores, e nos elevarmos ainda mais alto na nossa perpétua viagem.
Acrescentamos que as potências da Natureza são sem limites, na extensão e na duração. A luz, que percorre 300.000 quilômetros por segundo, leva 200 séculos a atravessar a Via-Láctea, formigueiro de estrelas do qual fazemos parte. Essas famílias ou nebulosas são inúmeras, e todos os dias se descobrem novas, por exemplo, a segunda de Orion, cuja extensão terrifica a imaginação. Vivemos no seio de um absoluto sem limites, sem começo e sem fim. (Ver, também, para pormenores, a nota complementar nº 3, no fim deste livro.)
Tantos mundos quantas escolas para a Alma, quantos campos de evolução para cultivar o nosso entendimento e, ao mesmo tempo, para construir organismos fluídicos cada vez mais delicados, purificados, brilhantes. Depois das lutas, dos tormentos, dos reveses de mil existências árduas, depois das provações e das dores dos ciclos planetários, virão os séculos de felicidade, nesses astros felizes, cujas claridades projetam sobre nós raios de paz e de alegria. Em seguida, as missões benditas, os novos apostolados, a tarefa invejável de provocar o estímulo, o desabrochar das Almas adormecidas, de auxiliar, por nossa vez, os nossos irmãos mais jovens nas suas peregrinações através das regiões materiais. Enfim, atingiremos as sublimes profundezas, o céu de êxtase, onde vibra mais poderoso, mais melódico, o pensamento divino, onde o tempo e a distância se anulam, onde a luz e o amor unem as suas irradiações, onde a Causa das causas, na sua fecundidade incessante, concebe para todo o sempre a vida eterna e a eterna beleza!
Nos nossos dias, o céu não pode ser o que foi tanto tempo para a ciência humana, isto é, um espaço vazio, triste e deserto. O Infinito se transforma e se anima. O círculo da nossa vida se alarga em todos os sentidos. Sentimo-nos ligados a esse Universo por mil laços. A sua vida é a nossa; a sua história é a nossa história. Fontes desconhecidas de meditação, de sensação, se abrem; o futuro toma aos nossos olhos carácter muitíssimo diferente. Uma impressão profunda nos invade, ao pensar em destinos tão amplos. Para sempre somos unidos a tudo o que vive, ama e sofre. De todos os pontos do Espaço, de todos esses astros que brilham na extensão, partem vozes que nos chamam, as vozes dos nossos irmãos mais velhos; e essas vozes nos dizem: “Caminha, caminha, eleva-te pelo trabalho; fazei o bem; cumpre o teu dever. Vem a nós que, iguais a ti, pensamos, lutamos e sofremos nesses mundos da Matéria. Vem prosseguir conosco a tua ascensão para Deus!”.
Dos espaços majestosos, baixemos nossos olhares para a Terra. Apesar de suas proporções modestas, ela tem, sabemo-lo, seus encantos, sua beleza. Cada sítio tem sua poesia, cada paisagem sua expressão, cada vale seu sentido particular. A variedade é tão grande nos prados do nosso mundo quanto nos campos estrelados. O verão é o sorriso de Deus! Nada mais suave, mais inebriante do que a apoteose de um belo dia em que tudo é carícia, doçura, luz. A florinha escondida na relva, o peixe que se esgueira entre as águas, fazendo espelhar ao sol suas escamas de prata, o pássaro que modula suas notas do alto das ramadas, o murmúrio das fontes, a canção misteriosa dos álamos e dos olmeiros, o perfume selvagem dos musgos, tudo isso acalenta o pensamento, regozija o coração. Longe das cidades, encontra-se a calma profunda que penetra a Alma, separando-a das lutas e das decepções da vida. Só e então se compreende a verdade destas grandes palavras: “O ruído é dos homens, o silêncio é de Deus!”.
A contemplação e a meditação provocam o despertar das faculdades psíquicas e, por elas, todo um mundo invisível se abre à nossa percepção. Ensaiei, no correr desta obra, exprimir as sensações experimentadas do alto dos cimos ou à borda dos mares, descrever o encanto dos crepúsculos e das auroras; a serenidade dos campos, sob o real esplendor do Sol, o prodigioso poema das noites estreladas, a sublimidade dos luares, o enigma das águas e dos bosques. Há momentos de êxtase em que a Alma se transporta fora do seu invólucro e abraça o Infinito; horas de intuição e entusiasmo em que o influxo divino nos invade qual uma onda irresistível, em que o pensamento supremo vibra e palpita em nosso íntimo, onde brilha, por um instante, a centelha do gênio. Essas horas inolvidáveis, eu as vivi algumas vezes e, em cada uma delas, acreditei na visita, na penetração do Espírito. Devo-lhes a inspiração de minhas mais belas páginas e de meus melhores discursos.
Aquele que se recolhe no silêncio e na solidão, diante dos espetáculos do mar ou das montanhas, sente nascer, subir, crescer em si mesmo imagens, pensamentos, harmonias que o arrebatam, encantam e consolam das terrestres misérias, e lhe abrem as perspectivas da vida superior. Compreende então que o pensamento de Deus nos envolve e nos penetra quando, longe das torpezas sociais, sabemos abrir-lhe nossas almas e nossos corações.
Certamente poderiam fazer-nos muitas objeções. Por exemplo, dizerem-nos: “Fazis sobressair os encantos da Natureza, mas não nos mostrais a sua fealdade”. Ela não tem somente sorrisos e carícias; possui também revoltas, cóleras, furores. Não falais dos monstros, nem dos flagelos que se lhe deparam. Que utilidade achais na existência dos animais ferozes, dos répteis, das plantas venenosas? Por que as convulsões do solo, as catástrofes, as epidemias, todos os males que geram o sofrimento humano?”
Ser-nos-á fácil responder. O belo, diremos, necessita dos contrastes. Todos os artistas, pensadores, escritores de valor, o sabem. E quando verificamos que, no conjunto dos mundos, a Terra ocupa um lugar inferior, e é, antes de tudo, para os Espíritos moços, uma escola, uma pousada de lutas, de provação e, às vezes, de reparação, como admirar-nos de que não seja dotada de todas as vantagens que possuem os mundos superiores?
Os perigos, os obstáculos e as dificuldades de toda espécie são fatores essenciais ao progresso, outros tantos aguilhões que estimulam o homem em seu caminhar, outras tantas causas que o constrangem a observar, a adquirir engenho, a tornar-se previdente, comedido em seus atos. É na alternativa forçada do prazer e da dor que está o princípio da educação das Almas. Daí a necessidade para os seres, desde os mais rudimentares até os mais desenvolvidos, de lutar e de sofrer. O progresso não poderia realizar-se sem o equilíbrio indispensável dos sentimentos opostos, gozos e penas que se alternam no ritmo grandioso da vida. Mas é principalmente a dor, física e moral, que forma a nossa experiência: a sabedoria humana é o seu prêmio.
Quanto aos movimentos sísmicos, às tempestades, às inundações, notemos que têm suas leis. Essas leis basta conhecerias, para se lhes previrem e atenuar os efeitos. Quando se estudam os fenômenos da Natureza e o pensamento penetra no fundo das coisas, reconhece-se isto: o que é um mal, na aparência, se torna, em realidade, um bem (30). A grandeza do espírito humano consiste em elevar-se da confusão, do caos das contingências à concepção da ordem geral. Ele pode então sentir-se em segurança no meio dos perigos do mundo, porque compreendeu as grandes leis que, à custa de alguns acidentes, asseguram o equilíbrio da vida e a salvação das raças humanas.
O homem em quem o sentido profundo, o sentido das coisas divinas ainda não despertou, o céptico, em uma palavra, quaisquer que sejam sua inteligência e seu saber em outras matérias, recusa-se a admitir estas coisas. Seria tão supérfluo insistir, quanto explicar a um cego de nascença as cores do Sol e das auroras, os jogos da luz sobre as águas ou sobre as geleiras. Ser-lhe-ão necessários choques da adversidade, o concurso das circunstâncias dolorosas, que o colocarão em contato direto com o seu destino e lhe farão sentir, juntamente com a utilidade dos sofrimentos, essas noções de sacrifício e de esperança pelas quais a vida toma seu sentido real e elevado.
Somente, então, poderá penetrar o grande mistério do Universo, e compreender que tudo tem sua razão de ser, que a dor tem seu papel, e que podemos tirar proveito de tudo, da provação, da moléstia e da própria morte, porque tudo, segundo o uso que fazemos, pode concorrer para o nosso adiantamento, para o nosso melhoramento moral. Desde então, a confiança e a fé o ajudarão a suportar pacientemente o inevitável, a abolir a desventura presente, a sofrer em paz. O conhecimento da Lei lhe dá a certeza de melhores dias e de um futuro sem-fim.
A partir desse dia, sua vida, tão obscura, tão vulgar, incolor que é, iluminar-se-á de um raio de luz e de poesia, porque a poesia mais verdadeira é feita da ressonância íntima da sinfonia eterna e do acordo de nossos pensamentos, de nossos sentimentos e de nossos atos com a pauta de nosso destino.
Falando qual o fizemos no correr destas páginas, seremos, sem dúvida, acusados de misticismo por mais de uma vez. Mas, todos aqueles cuja sensibilidade e juízo despertaram que se desenvolveram sob a ação das provações e das lutas da existência, saberão compreender-nos.
Certos espíritos terra-a-terra são inclinados a acoimar de místicos, de alucinados, de visionários, todos aqueles cujas percepções excedem o circuito limitado de seus pensamentos habituais. Supõem-se espíritos muito positivos e muito práticos, ao passo que, na realidade, as almas evolvidas, libertas dos preconceitos e das paixões, desdenhosas dos pequenos interesses materiais, têm, somente elas, a intuição das grandes e altas realidades da vida.
Em resumo, a Natureza e a Alma são irmãs, com esta diferença: uma evolve invariavelmente, segundo um plano estabelecido, e a outra, por si mesma, esboça, em uma página em branco, as grandes linhas do seu destino. São irmãs, porque provêm ambas da mesma causa eterna e estão unidas por milhares de laços. É o que explica o império da Natureza sobre os seres. A Natureza atua sobre as Almas sensíveis qual o magnetizador sobre o seu paciente, provocando o desligamento do Espírito de sua crisálida de carne. Então, na plenitude de faculdades psíquicas, a Alma percebe um mundo superior e divino que escapa à maior parte das inteligências.
Nunca esqueçamos isto: Tudo que cai sob os sentidos físicos, tudo que é do domínio material, é transitório, submetido à lei da destruição, à morte. As realidades profundas, eternas, pertencem ao mundo das causas, ao domínio do invisível. Nós próprios pertencemos a esse mundo, pela parte imperecível de nosso ser.
Eis que, pouco a pouco, a experimentação psíquica e as descobertas dela decorrentes se propagam e se estendem. O conhecimento do duplo fluídico do homem, sua ação à distância, antes e depois da morte, a aplicação das forças magnéticas, a manifestação das potências invisíveis, vêm demonstrar a todo observador atento que o mundo dos sentidos é uma pobre e obscura prisão, comparada ao domínio imenso e radioso aberto ao Espírito. (31)
Os sentidos interiores e as faculdades profundas da Alma dormitam ainda na maior parte dos homens que ignoram suas riquezas escondidas, seus poderes latentes. É essa a razão pela qual seus atos se ressentem de falta de base, de ponto de apoio. Daí, tantas fraquezas e desfalecimentos. Mas, a hora do despertar está próxima. O homem aprende a conhecer sua Alma, a extensão de seus poderes, de seus atributos; desde logo a separação e a morte deixarão de existir para ele; a maior parte das misérias que nos assediam desaparecerão, nossos amigos do Espaço virão mais facilmente nos visitar, corresponder conosco. Uma comunhão íntima se estabelecerá entre o Céu e a Terra, e a Humanidade entrará em fase mais alta e mais bela de seus gloriosos destinos.
Com a vista enfraquecida pelo trabalho, lanço ainda um olhar sobre esses céus que me atraem e sobre essa Natureza que eu amo. Saúdo os mundos que serão mais tarde nossa recompensa: Júpiter, Sirius, Orion, as Plêiades e essas miríades de focos, cujos raios trêmulos têm tantas vezes vertido em minha Alma ansiosa a paz serena e as inefáveis consolações.
Em seguida, do Espaço, lanço meu olhar para esta Terra que foi meu berço e será meu túmulo. Ó Terra, planeta, nossa mãe, campo de nossos labores e de nossos progressos, onde, lentamente, através da obscuridade das idades, minha consciência desabrocha com a consciência da Humanidade, tu flutuas no Infinito, acalentada pelos eflúvios divinos; derramas em volta de ti as vibrações potentes da vida que se agita em teu seio. Dir-se-ia uma harmonia confusa, feita de rumores e de vagidos, uma harmonia que sobe do meio dos mares e dos continentes, dos vales e das florestas, dos rios e dos bosques, e à qual se mistura a queixa humana: murmúrio das paixões, vozes de dor, ruídos de trabalho e cânticos de festa, gritos de furor e choques de exércitos. As vezes, também notas calmas e graves dominam esses rumores; a melodia humana substitui as harmonias da Natureza e o ruído das forças em ação; o cântico da Alma, liberta das servidões inferiores, saúda a luz. Um cântico de esperança sobe para Deus em Hosana, numa prece.
É tua alma, ó Terra! Que desperta e faz esforços para sair de obscura ganga, para misturar sua irradiação e sua voz às irradiações e às harmonias dos mundos siderais. É tua alma que canta à Alba renascente da Humanidade, porque esta desperta a seu turno, sai da noite material, do abismo de suas origens. A alma da Humanidade, que é a da Terra, busca-se, aprende a conhecer-se, a penetrar sua razão de ser; pressente seus grandes destinos, quer realizá-los.
Prossegue tua carreira, Terra que eu amo! Muitas vezes, já, meu Espírito sorveu em teus elementos as formas necessárias à sua evolução. Durante séculos, ignorante e bárbaro, percorri teus caminhos, tuas florestas, voguei sobre teus oceanos, nada sabendo das coisas essenciais, nem do fim a atingir.
Mas, eis que, chegando ao entardecer da vida, há essa hora crepuscular em que uma nova tarefa se acaba, em que as sombras se elevam à vontade e cobrem todas as coisas com seu véu melancólico, considero o caminho percorrido; em seguida, dirijo meus olhares para diante, para a clareira que se vai abrir para mim no Além e para suas claridades eternas.
Há esta hora, em que minha Alma se separa, pouco a pouco, de teus liames, ó Terra, e se prepara para te deixar, ela compreende o fim e a lei da vida. Consciente do teu papel e do meu, reconhecido a teus benefícios, sabendo por que existo, por que ajo e como é preciso agir, eu te bendigo, ó Terra, por todos os gozos e por todas as dores, pelas provações salutares que me proporcionaste, porque, em tudo que te devo – sensações, emoções, prazeres, sofrimentos –, reconheço os instrumentos de minha educação, de minha elevação. Eu te bendigo e te amo feliz, quando te deixar, pelo pensamento de voltar mais tarde, em nova existência, para trabalhar ainda, para sofrer, para me aperfeiçoar contigo, contribuindo, por meus esforços, para o teu progresso e o de meus irmãos, que são também teus filhos.
Léon Denis
(i) As estrelas, cujo afastamento faz que se pareçam imóveis, movem-se em todos os sentidos, em virtude de leis pouco conhecidas. Movimentos formidáveis arrastam cada foco sideral no turbilhão do Infinito. O nosso sistema solar voa com grande velocidade para a constelação de Hércules, e vence em 650 séculos uma distância igual à que nos separa da estrela Alfa de Centauro. O nosso astro central é um dos mais modestos sóis: Canopo o excede de mais de 10.000 vezes em brilho, Arcturo de 8.000. Visto da sua superfície, o nosso ofuscante foco seria um ponto imperceptível.
(ii) Segundo as observações telescópicas e a fotografia celeste, a Ciência estabelece que o nosso universo se compõe de um milhar de milhão de estrelas. Camille Flammarion crê que este universo não é único. Nada prova, diz ele, que esse bilião exista só no Infinito e que, por exemplo, não haja um segundo, um terceiro, um quarto e cem e mil universos semelhantes aos outros. Esses universos podem ser separados por espaços absolutamente vazios, desprovidos de éter e, por consequência, invisíveis uns dos outros. Parece até que conhecemos já algumas das estrelas que não pertencem ao nosso universo sideral. Podemos citar, por exemplo, com Newcomb, a estrela 1.830 do catálogo de Groombridge, a mais rápida, cujo movimento foi determinado. Este foi avaliado em 320.000 metros por segundo, e a forca atrativa do nosso universo inteiro não pode ter determinado tal velocidade. Segundo todas as probabilidades, essa estrela vem de fora e atravessa o nosso universo qual um projétil. O mesmo se pode dizer da de número 9.352 do catálogo de Lacaille, e mesmo de Artúrus, a quarta em grandeza das estrelas visíveis e de Mu de Cassiopeia (conferência de Agosto de 1906).
(30) Vide DEPOIS DA MORTE, cap. IX
(31) Vide CRISTIANISMO E ESPIRITISMO, PROVAS EXPERIMENTAIS DA SOBREVIVÊNCIA; NO INVISÍVEL e O PROBLEMA DO SER, DO DESTINO E DA DOR.
Até aqui, no nosso estudo da questão de Deus, mantivemo-nos no terreno dos princípios. Nesse domínio, a ideia de Deus nos aparece qual chave da abóbada da doutrina espiritualista. Vejamos agora se não tem a mesma importância no domínio dos fatos, na ordem experimental. (1)
À primeira vista, pode parecer estranho ouvir dizer que a ideia de Deus representa um papel importante no estudo experimental, na observação dos fatos espíritas.
Notemos primeiramente que há tendência, por parte de certos grupos, para dar ao Espiritismo carácter sobremaneira experimental, para fazer-se exclusivamente o estudo dos fenômenos, desprezando-se o que tem cunho filosófico, tendência para rejeitar tudo o que possa recordar, por pouco que seja, as doutrinas do passado, para, em suma, limitar tudo ao terreno científico. Nesses meios, procura afastar-se a crença e a afirmação de Deus, por supérfluas, ou, pelo menos, por serem de demonstração impossível. Pensa-se, assim, atrair os homens de ciência, os positivistas, os livres-pensadores, todos aqueles que sentem uma espécie de aversão pelo sentimento religioso, por tudo o que tem certa aparência mística ou doutrinal.
Por outro lado, desejar-se-ia fazer do Espiritismo um ensino filosófico e moral, baseado nos fatos, ensino susceptível de substituir as velhas doutrinas, os sistemas caducos, e satisfazer o grande número de Almas que buscam, antes de tudo, consolação para as suas dores; uma filosofia simples, popular, que lhes dê tréguas às tristezas da vida.
De um lado e de outro, há multidões a contentar; muito mais, até, de um lado que do outro, porque a multidão daqueles que lutam e sofrem excede em muito a dos homens de estudo.
A sustentar essas duas teses vemos, de uma parte e de outra, homens sinceros e convencidos, a cujas qualidades nos congratulamos de render homenagem.
Por quem optar? Em que sentido convirá orientar-se o Espiritismo para assegurar a sua evolução?
O resultado das nossas pesquisas e das nossas observações leva-nos a reconhecer que a grandeza do Espiritismo, a influência que adquire sobre as massas, provém, principalmente, da sua doutrina; os factos são os fundamentos em que o edifício se apoia. Certamente! As fundações representam papel essencial em todo o edifício, mas não é nas fundações, isto é, nas estruturas subterrâneas, que o pensamento e a consciência podem encontrar abrigo.
Aos nossos olhos, a missão real do Espiritismo não é somente esclarecer as inteligências por um conhecimento mais preciso e mais completo das leis físicas do mundo; tal consiste, principalmente, em desenvolver a vida moral nos homens, a vida moral que o materialismo e o sensualismo têm amesquinhado tanto. Levantar os caracteres e fortificar as consciências, tal é o papel do Espiritismo. Sob este ponto de vista, pode ser remédio eficaz para os males que assediam a sociedade contemporânea, remédio a esse acréscimo inaudito do egoísmo e das paixões, que nos arrastam ao abismo. Julgamos dever exprimir aqui a nossa inteira convicção: não é fazendo do Espiritismo somente uma ciência positiva, experimental; não é eliminando nele o que há de elevado, o que atrai o pensamento acima dos horizontes estreitos, isto é, a ideia de Deus, o uso da prece, que se facilitará a sua missão; ao contrário, concorrer-se-ia para torná-lo estéril, sem ação sobre o progresso das massas.
Certamente! Ninguém mais do que nós admira as conquistas da Ciência; sempre tivemos prazer de render justiça aos esforços corajosos dos sábios que fizeram recuar a cada dia os limites do desconhecido.
Mas a Ciência não é tudo. Sem dúvida ela tem contribuído para esclarecer a Humanidade; entretanto, tem-se mostrado sempre impotente para torná-la mais feliz e melhor.
A grandeza do espírito humano não consiste somente no conhecimento; está também no ideal elevado. Não foi a Ciência, e sim o sentimento, a fé e o entusiasmo que fizeram Jeanne d'Arc e todas as grandes epopeias da História.
Os enviados do Alto, os grandes predestinados, os videntes e os profetas não escolheram por móbil a ciência: escolheram a crença.
Eles vieram para mostrar o caminho que conduz a Deus.
Que é feito da ciência do passado? As vagas do esquecimento a submergiram, tal qual submergirão a ciência dos nossos dias. Quais serão os métodos e as teorias contemporâneas em vinte séculos? Em compensação, os nomes dos grandes missionários têm sobrevivido através dos tempos. O que sobrevive a tudo, no desastre das civilizações, é o que eleva a alma humana acima de si mesma, para um fim sublime, para Deus!
Há outra coisa mais. Mesmo limitando-nos ao terreno do estudo experimental, há uma consideração capital em que devemos inspirar-nos. É a natureza das relações que existem entre os homens e o mundo dos Espíritos; é o estudo das condições a preencher para tirar dessas relações os melhores efeitos.
Logo que chegamos aos ditos fenômenos, ficamos impressionados pela composição desse mundo invisível que nos cerca, pelo carácter das multidões de Espíritos que nos rodeiam e que procuram sem cessar pôr-se em relação com os homens. Em torno do nosso atrasado planeta flutua uma vida poderosa, invisível, onde dominam os Espíritos levianos e zombeteiros, com os quais se misturam Espíritos perversos e malfazejos. Aí há muitos apaixonados, cheios de vícios, criminosos. Deixaram a Terra com a alma repleta de ódio, com o pensamento saturado de vingança: esperam na sombra o momento propício para satisfazer os seus rancores, as suas fúrias, à custa dos experimentadores imprudentes e imprevidentes que, sem precaução, sem reserva, abrem de par em par as vias que fazem comunicar o nosso mundo com o dos Espíritos.
É desse meio que nos vêm as mistificações sem-número, os embustes audaciosos, as manobras bem conhecidas dos Espíritos experimentados, manobras pérfidas, que, em certos casos, conduzem os médiuns à obsessão, à possessão, à perda das suas mais belas faculdades, a tal ponto que certos críticos, fazendo a enumeração das vítimas desses factos, contando todos os abusos que decorrem de uma prática imprevista e frívola do Espiritismo, têm perguntado se não seria ele uma fonte de perigos, de misérias, uma nova causa de decadência para a Humanidade. (2)
Felizmente, ao lado do mal está o remédio. Para nos livrar das influências más existe um recurso supremo. Possuímos um meio poderoso para afastar os Espíritos do abismo e para fazer do Espiritismo um elemento de regeneração, um sustentáculo, um confortante. Esse recurso, esse preservativo é a prece, é o pensamento dirigido para Deus! O pensamento de Deus é qual uma luz que dissipa a sombra e afasta os Espíritos das trevas; é uma arma que dispersa os Espíritos malfazejos e nos preserva dos seus embustes. A prece, quando é ardente, improvisada – e não recitação monótona –, tem um poder dinâmico e magnético considerável; (3) ela atrai os Espíritos elevados e assegura-nos a sua proteção. Graças a eles podemos sempre comunicar com aqueles que nos amaram na Terra, aqueles que foram a carne da nossa carne, o sangue do nosso sangue e que, da sombra do Espaço, nos estendem os braços.
Temos verificado, muitas vezes, na nossa carreira de experimentadores: quando, numa reunião espírita, todos os pensamentos e vontades se unem num transporte poderoso, numa convicção profunda; quando sobem para Deus pela prece, jamais falha o socorro. Todas essas vontades reunidas constituem um feixe de forças, a arma segura contra o mal. Ao apelo que se eleva para o céu, há sempre algum Espírito de escol que responde. Esse Espírito protetor, a convite do Alto, vem dirigir os nossos trabalhos, afastar dali os Espíritos inferiores, deixando somente intervir aqueles cujas manifestações são úteis para eles próprios ou para os encarnados.
Há aí um princípio infalível. Com o pensamento purificado e a elevação para Deus, o Espiritismo experimental pode ser uma luz, uma força moral, uma fonte de consolações. Sem esses requisitos ele poderá ser a incerteza, a porta aberta a todas as armadilhas do Invisível; uma entrada franca a todas as influências, a todos os sopros do abismo, a esses sopros de ódio, a essas tempestades do mal que passam sobre a Humanidade, à semelhança de trombas, e a cobrem de desordem e de ruínas.
Sim, é bom, é necessário abrir veredas para a comunicação com o mundo dos Espíritos; mas, antes de tudo, deve evitar-se que essas veredas sirvam aos nossos inimigos, para nos invadirem. Lembremo-nos de que há nos mundos invisíveis muitos elementos impuros. Dar-lhes entrada, seria derramar sobre a Terra males inúmeros; seria entregar aos Espíritos perversos uma verdadeira multidão de almas fracas e desarmadas.
Para entrar em relação com as Potências superiores, com os Espíritos esclarecidos, é preciso a vontade e a fé, o desinteresse absoluto e a elevação dos pensamentos. Fora destas condições, o experimentador seria o joguete dos Espíritos levianos.
“O que se assemelha se ajusta”, diz o provérbio. Com efeito, a lei das afinidades rege tanto o mundo das Almas quanto o dos corpos.
Há, pois, tanto sob o ponto de vista teórico quanto do prático e, ainda, sob o ponto de vista do progresso do Espiritismo, a necessidade de se desenvolver o senso moral, de nos ligarmos às crenças fortes e aos princípios superiores, de não abusar das evocações, de não entrar em comunicação com os Espíritos senão em condições de recolhimento e de paz moral.
O Espiritismo foi dado ao homem como meio de se esclarecer, de se melhorar, de adquirir qualidades indispensáveis à sua evolução. Se se destruíssem nas Almas ou somente se desprezassem a ideia de Deus e as aspirações elevadas, o Espiritismo poderia tornar-se coisa perigosa. Eis a razão pela qual não hesitamos em dizer que entregarmo-nos às práticas espíritas sem purificar os nossos pensamentos, sem os fortificar pela prece e pela fé, seria executar obra funesta, cuja responsabilidade poderia cair pesadamente sobre os seus autores.
Chegamos agora a um ponto particularmente delicado da questão. Atribui-se muitas vezes aos espíritas o não viverem sempre de acordo com os seus princípios; fazendo-se observar que entre eles o sensualismo, os apetites materiais e o amor ao lucro ocupam lugar muitas vezes considerável. Acusam-nos, principalmente, de divisões intestinas, rivalidades de grupos e de pessoas, que são grandes obstáculos à organização das forças espíritas e à sua marcha para diante.
Não nos interessa insistir sobre essas proposições; não queremos pronunciar aqui nenhum juízo desfavorável para quem quer que seja. Permita-se-nos somente fazer notar que não será reduzindo o Espiritismo ao papel de simples ciência de observação, que se conseguirá iludir, atenuar essas fraquezas. Ao contrário, não faremos mais que as agravar. O Espiritismo exclusivamente experimental já não terá autoridade, nem força moral necessárias para ligar as Almas. Alguns supõem ver no afastamento da ideia de Deus uma aproveitável medida ao Espiritismo. Por nossa parte, diremos que é a insuficiência atual desta noção e, ao mesmo tempo, a insuficiência dos nobres sentimentos e das altas aspirações, que produzem a falta de coesão e criam as dificuldades da organização no Espiritismo.
Desde que a ideia de Deus se enfraquece numa Alma, a noção do eu, isto é, da personalidade, aumenta logo; e aumenta ao ponto de se tornar tirânica e absorvente. Uma dessas noções não cresce e se fortifica senão em detrimento da outra. Quem não adora a Deus, adora-se a si mesmo, disse um pensador.
O que é bom para os meios de experimentação espírita, é bom para a sociedade inteira. A ideia de Deus – nós o demonstramos – liga-se estreitamente à ideia de Lei, e assim à de dever e de sacrifício. A ideia de Deus liga-se a todas as noções indispensáveis à ordem, à harmonia, à elevação dos seres e das sociedades. Eis por que, logo que a ideia de Deus se enfraquece, todas essas noções se debilitam; desaparecem, pouco a pouco, para dar lugar ao personalismo, à presunção, ao ódio por toda a autoridade, por toda a direção, por toda a lei superior. E é assim que, pouco a pouco, grau a grau, se chega a esse estado social que se traduz por uma divisa célebre, que ouvimos ecoar por toda a parte: Nem Deus, nem Senhor!
Tem-se de tal modo abusado da ideia de Deus, através dos séculos; tem-se torturado, imolado, em seu nome, tantas vítimas inocentes; em nome de Deus tem-se de tal modo regado o mundo de sangue humano, que o homem moderno se desviou Dele. Tememos muito que a responsabilidade desse estado de coisas recaia sobre aqueles que fizeram, do Deus de bondade e de eterna misericórdia, um Deus de vingança e de terror. Mas, não nos compete estabelecer responsabilidades. O nosso fim é, antes, procurar um terreno de conciliação e de aproximação, em que todos os bons Espíritos se possam reunir.
Seja como for, os homens modernos, na grande maioria, já não querem suportar acima deles nem Deus, nem lei, nem constrangimento; já não querem compreender que a liberdade, sem a sabedoria e sem a razão, é impraticável. A liberdade, sem a virtude, leva à licença, e a licença conduz à corrupção, ao rebaixamento dos caracteres e das consciências, numa palavra, à anarquia. Será somente quando tivermos atravessado novas e mais rudes provas que consentiremos em refletir. Então, a verdade se fará luz e a grande palavra de Voltaire se verificará aos nossos olhos: “O ateísmo e o fanatismo são os dois polos de um mundo de confusão e de horror!” (A História de Jeni.).
É verdade que muito se fala de altruísmo, nova denominação do amor da Humanidade, e se pretende que esse sentimento deve bastar. Mas, como se fará do amor da Humanidade uma coisa vivida, realizada, quando não chegamos, não direi a amar-nos, mas somente a suportar-nos uns aos outros? Para se agruparem os sentimentos e as aspirações, é necessário um ideal poderoso. Pois bem! Esse ideal não o encontrareis no ser humano, finito, limitado; não o encontrareis nas coisas deste mundo, todas efémeras, transitórias. Ele não existe senão no Ser infinito, eterno. Somente Ele é bastante vasto para recolher, absorver todos os transportes, todas as forças, todas as aspirações da alma humana, para reconhecê-los e fecundá-los. Esse ideal é Deus!
Mas que é o ideal? É a perfeição. Deus, sendo a perfeição realizada, é ao mesmo tempo o ideal objetivo, o ideal vivo!
Léon Denis
(1) Vide as minhas obras precedentes: Cristianismo e Espiritismo, No Invisível e, ainda, Espíritos e Médiuns – tratado de Espiritismo experimental.
(2) Vide J. Maxwell, Fenômenos Psíquicos, páginas 232 a 235; Léon Denis, No Invisível, cap. XXII. Vide também Relatório de Congresso Espírita de Bruxelas, 1910, págs. 112, 124.
(3) Obtemos a prova objetiva desse facto por meio das Chapas fotográficas. No estado de prece, pelo contacto dos dedos, conseguimos impregnar as chapas de radiações muito mais ativas, de eflúvios mais intensos do que no estado normal.
Léon Denis - Livro O Grande Enigma - 3ª Parte - A Lei Circular - Cap. 16
A missão do século XX
Quando se lança um olhar rápido sobre o conjunto da História, esse verdadeiro livro do destino dos povos, parece que cada século tem um papel especial a preencher, uma particular missão a exercer na marcha da Humanidade.
O século XX parece ter uma vocação superior a todos os outros.
Em sua primeira metade, assiste ao desmoronamento de tudo quanto constituiu o passado.
Em sua segunda metade, assentará as bases do mundo futuro, feito de beleza, de luz, de justiça, que nossos contemporâneos saudaram por miragem ainda longínqua desse novo mundo do pensamento e de ciência, mundo que pressentimos tal qual Cristóvão Colombo pressentiu a aproximação de um continente desconhecido.
A transição não se faz sem abalo, sem choques violentos. O espetáculo das decomposições que se produzem seria lamentável, se não soubéssemos que, às grandes ruínas, sucedem as grandes ressurreições.
A História, com efeito, apaga para poder escrever; o pensamento só destrói para reconstruir; é a lei da evolução, a marcha lógica da Humanidade.
Assistimos ao aluir das religiões, ou melhor, dos ritos e formas culturais, porque a religião, em seu princípio, em sua essência, isto é, o voo da Alma para o Infinito, a aspiração das Inteligências para o ideal divino, a religião é indestrutível, quanto o é a Verdade, inesgotável quanto o amor, inalterável quanto a beleza.
O que deve perecer e tende, dia a dia, a extinguir-se, são as velhas fórmula dogmáticas, o farisaísmo antigo, as disciplinas envelhecidas. É todo o aparelhamento sacerdotal e o culto dos ídolos.
A Religião Católica, em particular, abate-se ao peso de suas faltas seculares.
A Igreja Romana, desde há muito, não passa de potência política. Seus pontífices desconheceram a própria missão; seus padres perderam o senso da iniciação profunda e sagrada dos primeiros cristãos.
Assim se acentuou, pela abolição da Concordata e pela atitude do papa, durante a última guerra, a ruptura entre a Igreja e a sociedade moderna, a cisão entre o espírito de Roma e o do século.
Assistimos igualmente ao desabamento da Ciência, não da verdadeira Ciência, como o pretendia Brunetière, porque esta não pode perecer – (a trabalhadora que jamais depõe a sua balança) –, mas da ciência materialista, a que dominou o mundo durante mais de cem anos.
Há meio século, Ernest Renan publicava um livro sobre o Futuro da Ciência, livro habilmente concebido, que teve certa voga, e no qual profetizava a desaparição, em breve termo, do mistério que, sob formas diversas, surge em desafio ao pensamento humano.
O mistério subsistiu... Multiplicou-se, mesmo, graças à recente descoberta da radioatividade dos corpos e do desenvolvimento dos fenômenos psíquicos.
Outros exemplos farão ver até que ponto a ciência oficial, proclamando vitórias sobre a Matéria, mostrou-se impotente para resolver as grandes questões que têm tratado da Alma humana e de suas faculdades.
Nos seus Enigmas do Universo, escreveu Haeckel: “Enquanto o enigma da substância, que recapitula todos os outros enigmas, não for resolvido, nada se terá feito para a satisfação do espírito humano.”
Um dos mestres da ciência moderna, Henri Poincaré, a quem a morte surpreendeu em meio de seus trabalhos, demonstrava, em uma de suas últimas obras, que a Ciência é, ainda, uma hipótese, e confessava que as leis da Física estão para rever-se.
D'Arsonval teve quase a mesma linguagem, em seu curso no Colégio de França.
Vejamos agora o que dizia sobre o mesmo assunto William James, reitor da Universidade de Harvard, nas últimas páginas de seu belo livro: A Experiência Religiosa. Ele declara não poder, “sem ouvir uma demonstração interior”, colocar-se na atitude do homem de ciência que não vê nada fora da sensação e das leis da Matéria.”.
E algumas linhas mais adiante: “Toda experiência humana, em sua viva realidade, impele-me irresistivelmente a sair dos estreitos limites em que a Ciência pretende confinar-se. O mundo real é diferentemente constituído, muito mais rico e mais complexo que o da Ciência.”.
É precisamente esse mundo real, o mundo psíquico, que a maior parte dos nossos sábios não quer conhecer; em vez de estudar, como deveriam, a vida, em suas altas manifestações, perdem-se na análise infinitesimal; não vêem, por assim dizer, senão o pó das coisas e das idéias.
Faltaram sempre à ciência oficial a independência e a liberdade; apartou-se do caminho, submetendo-se servilmente à autoridade da Igreja; em seguida, enfeudou-se às doutrinas materialistas do século XVIII e, em seguida, ao panteísmo germânico. Enfim, depois de quase um século, tornou-se o satélite do Positivismo, essa doutrina incompleta, que se desinteressa sistematicamente do maior problema que o espírito humano quer e deve resolver o da sua origem e de seu destino. Ela se limita a arrastar pelo mundo fórmulas secas e banais, semelhantes à “Vitória-aptera”, que, desprovida de asas, se achava condenada a rastejar, sem poder elevar-se do solo.
A Ciência céptica havia posto a lei do número na base de tudo. Desde então, a vida tornou-se uma espécie de álgebra, cujas equações nos levaram a uma ou a muitas incógnitas. Era andar em sentido contrário ao da Natureza; porque o homem existe para criar e não para decompor; para agir, e não unicamente para analisar. Esse sistema negativo havia tornado estéreis os trabalhos dos sábios, e foi assim que vimos, desde muito, ir, pouco a pouco, apagando-se, sob nossos olhos, os caracteres e as consciências, a arte, o ideal e a beleza.
Com efeito, a Ciência desconheceu a lei da estética, consagrando o naturalismo que disseca a vida, em lugar de desenvolvê-la. Em moral, preconizou o determinismo, que erige em princípio a impotência do esforço e a renúncia à ação. Na ordem social, a pulverização, ao infinito, dos poderes e das responsabilidades, dando em resultado, por momentos, a um estado de coisas que confina com a desordem e a confusão.
A Ciência, que tinha por missão construir uma sociedade sobre bases novas, destruiu sem nada edificar. Perdendo de vista as grandes altitudes, os grandes focos do pensamento, a Ciência céptica resfriou o coração humano; destruiu o grau elevado que poetiza a vida, que a torna suportável. Eis por que as gerações que surgem se mostram desenganadas e reclamam outra coisa.
O problema político não oferece menor gravidade. Sob a pressão dos acontecimentos, a maior parte das instituições monárquicas desmoronou-se e a democracia triunfante estendeu-se sobre suas ruínas; em seu seio, porém, surgiu uma crise intensa. Crescem e espalham-se os elementos de anarquia. Os destinos da ciência materialista e os do Socialismo atual estão em correlação; inspiram-se pelos mesmos métodos e pelas mesmas fórmulas.
É preciso convir, a democracia socialista de nossos dias está em desacordo com o próprio princípio da Revolução. Esta era essencialmente individualista; queria dar a cada um a livre iniciativa de seus atos pessoais.
O regime atual age diferentemente; tende a nivelar as individualidades fortes, e a passar logicamente da igualdade de direito à igualdade de fato. Vai ao coletivismo, isto é, à negação da pessoa humana e à sua absorção no todo social. O “Estadismo” não nos desembaraçaria das mediocridades; bem ao contrário, seria, por natureza, o seu protetor. Não é também a regulamentação do trabalho, pela coletividade, que dará ao proletariado a felicidade que os utopistas do dia fazem luzir a seus olhos.
Os homens são iguais, dir-se-á. Em seu sentido histórico restrito, a fórmula pode parecer exata; mas não se poderia tratar aqui de igualdade real, absoluta. Se os homens são iguais em direito, serão sempre desiguais em inteligência, em faculdades, em moralidade. Afirmar o contrário seria negar a lei da evolução, que, naturalmente, não age com a mesma eficácia sobre todos os indivíduos.
O homem livre na terra livre! Tal será o ideal social do futuro. Mas, é preciso ter em conta a necessidade preliminar de outro fator: a Fraternidade, que só pela harmonia pode estar em equilíbrio com a liberdade.
Têm fugido os séculos, desde a idade heróica dos primeiros cristãos, quando estes vendiam quanto possuíam, para que os Apóstolos distribuíssem, entre todo o preço dessa venda, segundo as necessidades de cada um.
Esse princípio de verdadeira fraternidade, lembrado por Mabli aos homens da Revolução, onde se encontrará? Não é decerto nos costumes atuais, que o egoísmo caracteriza; é nas aspirações da Alma humana, nesse movimento que agita os povos de um extremo a outro da Terra; é no longínquo das idades futuras!...
Acabamos de passar em revista as ruínas a que o século XX já assistiu. Falemos agora das renovações que prepara e que executará.
É sempre na ordem intelectual que as grandes renovações começam. As idéias precedem e preparam os fatos. É a lógica da História e a lei do progresso humano. O abuso dos métodos e dos processos de análise tem estado a ponto de nos perder. Consequentemente, é mister preparar as grandes sínteses, as concepções de conjunto. Eis que se estabelece um novo ponto de vista para todas as coisas. Para aplicar métodos novos são precisos homens novos. Para a ciência livre de amanhã, são necessários espíritos livres.
Enquanto os homens destas gerações, submetidos à disciplina da Igreja ou da Universidade, não tiverem desaparecido, apenas se poderá esboçar a obra de redenção do espírito humano. A Igreja com suas confissões e a Universidade com seus exames quebrantaram a elasticidade da Alma e oprimiram os surtos do pensamento.
As vocações e as inteligências retraíram-se; ninguém teve o tempo e o espaço necessário para sentir e viver plenamente.
Prepara-se, entretanto, o trabalho de renovação. O século XIX e o começo do XX viram aparecer os precursores. Os gênios não tardarão em vir.
Em cada época da História, conta-se certo número de Espíritos que pertencem mais ao século seguinte do que àquele em que vivem.
Shakespeare escreveu: “Os grandes acontecimentos projetam diante de si sua sombra, antes que sua presença abale o Universo.”
Ora, os precursores viram essa sombra grandiosa desenhar-se-lhes no caminho, em formas móveis e poderosas; pressentiram os fatos e adivinharam as leis. Era o sinal de sua eleição intelectual e de sua vocação; mas, havia ali também a razão do seu isolamento, de seu abandono, de seus sofrimentos em meio à multidão, que os não podíamos compreender.
Acontecimentos surgiram com grandeza trágica. Durante mais de um quatriênio os povos se chocaram com abalos formidáveis. A guerra prosseguiu em sua obra de ruína e de morte, ao mesmo tempo em que varria muitos erros, ilusões e quimeras. Ao sopro da tempestade, rasgaram-se as nuvens e apareceu um canto de céu azul.
O décimo nono século foi o século da Matéria; o vigésimo será o do Espírito.
O décimo nono, perscrutando a Natureza, fez surgir desconhecidas energias; o vigésimo revelar-nos-á forças espirituais superiores a tudo quanto o homem sonhou, e o estudo dessas forças nos conduzirá à solução do problema da vida e da morte. Os precursores são grandes diante da História! São eles que esclarecem a marcha da Humanidade na imensa estrada de seus destinos.
Assemelham-se aos concorrentes do stadium antigo, de que fala Lucrecio, e que passaram de mão em mão o facho da inspiração. Sem eles, as renovações intelectuais do mundo não encontrariam os caminhos abertos, nem os espíritos preparados. Entre eles podemos citar, de nossos dias: Allan Kardec, Jean Reynaud, Flammarion, Victor Hugo, Crookes, Myers, Lodge, etc.
O livro de Myers, sobre A Personalidade Humana, termina por uma bela síntese experimentalista. O autor demonstra que é preciso, primeiramente, explicar o homem ao próprio homem.
O aprender a conhecer o homem leva ao conhecimento de Deus e do Universo. É o que havia recomendado o poeta inglês Pope, em seu Ensaio sobre o homem.
Mas as gerações passam, e é sempre esquecido esse estado essencial do homem interior. O século XIX consagrou incalculáveis recursos, imensos laboratórios ao estudo do universo material; estendeu prodigiosamente o campo de suas observações e de suas experiências; mas, o mundo ignorava ainda a constituição íntima do ser humano e as leis de seu destino.
Encontraram-se, pois, nossos legisladores na impossibilidade de governar. Como, com efeito, dirigir homens, administrar povos, quando se ignora ou se finge ignorar o grande princípio da vida? Daí surgiu o mal-estar de que sofre hoje nosso país.
O formidável problema do trabalho, com suas múltiplas dificuldades, tem por origem esse erro capital. Não quis ver na pessoa humana mais que um corpo a nutrir e explorar, e, partindo daí, só houve a preocupação das necessidades materiais. A luta pela vida tornou-se tão brutal quanto o era no tempo dos bárbaros.
O mal é grande, e não será sanado com sistemas empíricos. Nem no Socialismo, sob a fórmula atual, nem no Catolicismo serão encontrados os remédios.
Faz-se mister, em primeiro lugar, descobrir as causas para nos atermos a elas. Ora, estas são, por assim dizer, constitucionais ao homem. Seus erros, eis o que é preciso corrigir; suas paixões, eis o que é preciso combater, agindo menos sobre as massas do que sobre o indivíduo.
É ao todo, com efeito, que se deve esclarecer e corrigir; é preciso cultivar e desenvolver o homem interior em cada personalidade viva, se quisermos passar do reino da Natureza ao do Espírito.
Para a ciência nova, são necessários homens que conheçam a fundo as leis superiores do Universo, o princípio da vida imortal e a grande lei da evolução, que é uma lei de amor, e não uma lei de bronze, conforme o disse Haeckel.
Existe uma doutrina, ao mesmo tempo – velha quanto o mundo, e jovem quanto o futuro, porque é eterna, sendo a Verdade; uma doutrina que resume todas as noções fundamentais da vida e do destino; é o Espiritismo, e o livro de Myers, acima citado, é o seu comentário científico.
O Espiritismo faz erupção no mundo; espalha-se por toda parte.
Qual é a sociedade sábia, a revista hebdomadária, o jornal cotidiano, que não se ocupa de seus fenômenos, de suas manifestações, ainda que para negá-los, criticar, mascarar ou combater?
O Espiritismo é a questão do momento presente, o problema universal. Não é mais possível quedar indiferente em face dele.
E é precisamente porque essa invasão espiritual enche os dois mundos e preocupa o pensamento humano, que acreditamos dever insistir sobre os deveres que nos incumbem para com essa nova fé, essa ciência, jovem e forte, que oferece provas irrefutáveis da vida depois da morte, e contém, em gérmen, todas as ressurreições do futuro!...
Relembramos, ao terminar, o caráter sensível do Espiritismo moderno. Não é um sistema novo que se vem juntar a outro, nem um conjunto de teorias vãs. É um ato solene do drama da evolução que começa uma revelação que ilumina, ao mesmo tempo, as profundezas do passado e do futuro, que faz surgir do pó dos séculos as crenças adormecidas, as anima com uma nova chama e, completando-as, as faz reviver.
É um sopro poderoso que desce dos Espaços e corre sobre o mundo; sob sua ação, todas as grandes verdades se revelam. Majestosas, emergem do crepúsculo das idades, para desempenhar o papel que o pensamento divino lhes assinala. As grandes coisas se fortificam no recolhimento e no silêncio.
No olvido aparente dos séculos, colhem energias novas. Retraem-se e preparam-se para os empreendimentos futuros.
Acima das ruínas dos templos, das civilizações extintas e dos impérios desmoronados, acima do fluxo e do refluxo das marés humanas, uma voz poderosa se eleva; e esta voz clama:
Os tempos são vindos, os tempos são chegados!
Das profundezas estreladas descem à Terra os Espíritos em legião, para o combate da luz contra as trevas.
Não são mais os homens, os sábios e os filósofos que trazem uma doutrina nova. São os Gênios do Espaço que vêm e sopram em nossos pensamentos os ensinos chamados a regenerar o mundo.
São os Espíritos de Deus! Todos quantos possuem o dom da clarividência os percebem pairando acima dos seres da Terra, tomando parte em nossos trabalhos, lutando ao nosso lado para o resgate e a ascensão da Alma humana.
Grandes feitos se preparam. Que se ergam os trabalhadores do pensamento, se querem participar da missão oferecida por Deus a todos os que amam a Verdade e a ela servem.